Palavras dos editores: memórias de afetos

Cada autor que aqui aparece com sua história, com sua experiência, com seu conto tem uma visão do mundo, uma perspectiva, uma origem, um cruzo, uma ancestralidade.

Essas são as histórias dos nossos afetos.

Nenhum escrito aqui pretende ser regra, impor parâmetros ou determinar como se vive a macumba. Pelo contrário, exploramos o potencial de transformar gira, dança, ponto, vivência em emoção.

Este espaço nasce dos encontros de palavras. Um lugar de memórias de afetos; onde o fogo não queima, mas aquece a alma; onde as águas correm em forma de texto, levando recados, ensinamentos e silêncios. Por que não?

A Casa Axé das Águas é a protagonista. É dentro dela que vivemos nossos afetos. Nosso cenário é um convite ao mergulho onde os rios de Oxum encontram os mares de Iemanjá. Quem chega é chamado a lavar os olhos, escutar com o corpo inteiro e permitir que algo se mova por dentro. É uma casa de Pombagira que dança, gargalha e acolhe.

Narramos nossos afetos a partir da experiência, do atravessamento, dos encontros dentro dessa casa de Axé. Falamos sobre viver e sentir a macumba desde dentro dessa comunidade, com os pés descalços no chão riscado, honrando nossa ancestralidade. Cada texto aqui poderia ser um ponto cantado: carrega intenção, vibração, história e, sobretudo, respeito.

Aqui, o sentir é um saber. Há poder em saber o que se sente, em nomear os afetos e transformá-los em memórias, passá-los adiante para que outras pessoas possam se identificar, se aproximar.

Afetos são únicos

Na epistemologia dos afetos, não há espaço para julgar, criticar, ofender. Cada afeto, um ser humano. Cada ser humano, um universo.

A macumba que pulsa nesses escritos é viva, contraditória, atravessada por alegrias e dores, por dúvidas e certezas que mudam com o tempo. Somos afetados por nossa espiritualidade. Aqui todo mundo ri, chora erra e aprende. Nossa espiritualidade se constrói no corpo, na relação em comunidade, no afeto que nutrimos.

Falamos de orixás, entidades, guias e ancestrais, mas também falamos de gente. Falamos de relações, de perdas, de reencontros, de cuidado, de tempo. Falamos do sagrado sem separá-lo do mundo, porque entendemos que o sagrado mora justamente no encontro entre o invisível e o concreto, entre o mito e a experiência vivida.

Este não é um espaço de iniciação formal, tampouco um manual. Não substitui o chão do terreiro, o toque do atabaque, o silêncio da reza, a vela acesa no tempo certo. O que oferecemos aqui são rastros, pistas, ecos. Quem lê não encontrará fórmulas prontas, mas poderá reconhecer sentimentos, identificar-se com vivências, questionar certezas e, quem sabe, despertar para nossas possibilidades de viver sua fé, sua espiritualidade, sua relação com o que é sagrado, com a natureza.

A diversidade de vozes que compõe este espaço é intencional. A macumba não é uma coisa só, nunca foi. Ela se reinventa em cada casa, em cada corpo, em cada território. Honramos essa multiplicidade ao permitir que diferentes narrativas coexistam, mesmo quando não concordam entre si. A discordância aqui não é ruptura, é fertilidade. É no cruzo que algo novo nasce.

Entendemos o cruzo como fundamento. Cruzam-se caminhos, histórias, sangues, crenças, afetos. Cruzam-se tempos: o passado ancestral, o presente vivido e o futuro que ainda não tem nome. Cruzam-se também linguagens: a palavra escrita encontra o canto, o gesto, o silêncio. Este é um ponto de encontro para tudo isso.

A Casa Axé das Águas carrega em seu nome um princípio: a água como memória, como movimento, como continuidade. Nada aqui é estático. Os textos dialogam entre si, se transformam à medida que são lidos, ganham novos sentidos conforme o leitor muda. Assim como a água, eles contornam, infiltram, às vezes transbordam.

Quem chega agora talvez não conheça nossos ritos, nossos fundamentos, nossos modos de fazer. Está tudo bem. Não é preciso entender tudo de imediato. A leitura também é um processo iniciático, feito de aproximações, estranhamentos e reconhecimentos.

Permita-se ler devagar. Permita-se compreender com o tempo – “quando estiver maduro para conviver com o novo saber“. Permita-se sentir o transe.

Há textos que nascem da alegria do axé correndo solto. Outros surgem da dor, do luto, da ausência. Todos são tratados com o mesmo cuidado, porque sabemos que a espiritualidade não se manifesta apenas nos dias de festa, mas também nos momentos em que precisamos do colo dos Pretos Velhos, do silêncio das matas dos Cablocos ou de palavra firme dos Boiadeiros.

Escrever, para nós, é também um ato de responsabilidade. Sabemos que a macumba foi — e ainda é — alvo de preconceito, violência e silenciamento. Por isso, cada palavra aqui publicada carrega o compromisso de não reproduzir opressões, de não espetacularizar o sagrado, de não transformar a vivência em commodity. Falamos com quem está disposto a ouvir com respeito.

Este espaço é aberto, mas não é raso. É acessível, mas não é simplista. Convida, mas não se oferece sem critério. Quem lê com atenção perceberá que há camadas, entrelinhas, silêncios propositais. Nem tudo precisa ser dito. Algumas coisas apenas sentiremos. Afetos.

“Palavras dos editores” não é um epílogo, mas uma soleira. Um lugar de passagem entre o fora e o dentro. Ao atravessá-la, esperamos que você compreenda que não encontrará aqui uma doutrina fechada, mas um campo fértil de experiências afetivas narradas. Que estas palavras sirvam como inspiração, não como mapa definitivo para caminhar pelas macumbas.

Se algo ressoar em você, guarde. Se algo incomodar, reflita. Se algo passar sem deixar marca, deixe ir.

Que os Orixás abençoem nossas palavras.

Boa leitura!

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