Era um dia cinza. Mas a fila na frente do terreiro era significativa. Era minha primeira vez. Nenhum rosto conhecido. Eu sabia que estava no lugar certo. Havia conferido o Google Street View e a guardado o número da casa no coração: 41.
Quando o portão se abriu, os números das senhas foram sendo distribuídos: vermelhos, amarelos e azuis. Prioridades, preferenciais e os demais.
Entrei com olhos curiosos, absorvendo tudo com intensidade. Queria ver exatamente o que aconteceria em cada segundo. Me encaminhei pro fundo, de pé ao final da fila de cadeiras pra ver o congá, a corrente, os atabaques, a energia, os movimentos.
Analisei os rostos das pessoas de pé lá na frente, filhos da casa, talvez advogados, talvez contadores, uma até parecia modelo. Reparei tudo, sem reconhecer hierarquias, apenas simpatia, sorrisos acolhedores.
No canto, um quadro dizia: “Acredite no seu Axé”.
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Pela primeira vez, acreditei.
Encarei aquelas palavras populares por diversas vezes, enquanto eu duvidava da minha coragem para estar pisando ali sozinha: “acredite no seu potencial, acredite na sua energia, acredite em você.”
Sabendo que muitas vezes o medo é o melhor amigo da ignorância, antes de chegar pela primeira vez, me muni do conhecimento que encontrei. Li o que havia na internet, li o que havia nos livros, até conferi nas redes sociais.
Estudei de verdade pra encarar aquele potencial futuro pela primeira vez, ou não seria eu. Afinal, eu estava indo sozinha. A macumba era coisa minha. Só minha. Ninguém iria me apoiar. Se eu desistisse ninguém iria saber. Se eu fugisse de medo, ninguém iria ver. Mas eu saberia.
Tentando evitar me sentir perdida, achei que deveria decorar uma oração ao menos. Era meu paradigma. Eu sabia o “Pai Nosso” de cor – por que não aprender Salve Jorge? Me sentiria uma macumbeira ligeiramente legítima. Engano meu.
Nunca ouvi aquela oração. Nenhuma menção a São Jorge.
O Rei? Ogum!
A verdade é que eu não sabia de nadinha. Apenas entendi quando a Mãe se apresentou e abriu “gira”. Era o fim do ensaio e o começo dos trabalhos. A energia mudou.
Eu me mantive firme, mesmo diante do desconhecido. Eu tinha um compromisso claro comigo mesma. Era a primeira vez que eu tinha um propósito. Eu tinha uma missão. Aquele era o lugar onde eu escolhi viver isso.
Eu encontrei o terreiro. O terreiro me encontrou. Era como pisar no mar pela primeira vez sem saber nadar.
Como tudo era muito novo, não havia nenhum tipo de critério sobre a casa. Os critérios eram sobre mim: “Posso chegar lá andando?”, “Faça chuva ou faça sol, no meu pior ou no meu melhor, estarei lá?!” “Se tudo ficar contra mim… Se eu não tiver 1R$, ainda sou capaz de cumprir com as minhas obrigações?”
Obrigações que eu não fazia ideia de quais eram, o que significavam ou como seriam.
Eu sabia pouco sobre a casa, só o que estava no Instagram. Nada sobre a Mãe, menos ainda sobre o Pai _ demorei meses até entender que eles são casados.
Lá estava eu, porque Preto Velho disse que aquela era minha missão, meu propósito. “Mizifia tem um dom”. E naquelas palavras, eu encontrei o rumo da minha vida. Elas me preencheram, me iluminaram, me deram alento. Eu precisava delas pra viver, pra dar sentido à minha existência.
Confesso, naquele primeiro dia, eu senti dor.
(Até ali, a dor me levou pra giras em lugares onde eu buscava esperança. Eu queria sarar. Não necessariamente pertencer.)
A doença da minha cabeça foi comigo pro terreiro. O medo da menina criada entre mitos sobre a macumba se instalou sob os meus ombros, tensionou minha nuca, encontrou meus nervos desequilibrados.
Enquanto eu batia palmas, sem saber cantar os pontos, e respirava a defumação, a dor foi descarregando.
Chegaram os orixás. Tamanho era meu desconhecimento sobre eles que eu nem se quer me lembro quais eram. Pouco entendia qual era diferença entre Guias, Orixás, Entidades e outros espíritos.
Senão me falha a memória, a gira era de Boiadeiros. Me lembro do cheiro do cigarro de palha, as varinhas de eucalipto tilintando pelo chão, os chapéus girando. Fala firme, abraço forte, conselho sábio.
Me senti extasiada.
Ali estava meu passado: quantos bois eu toquei com meu avô, guiando as vaquinhas de leite pela estrada de terra. Pequena, com a minha própria varinha de marmelo em mãos. A nossa boiada, de 31…
Ali estava meu futuro. Eu sabia, era questão de tempo, eu aprenderia os pontos, os ritos, os tempos de cada movimento da gira. Uma gira acontecia dentro de mim enquanto eu observava em silêncio.
O passe do boiadeiro. A receita do banho. O abraço do cambone. O adeus na porteira.
Eu me senti em casa, pela primeira vez. Sabia que voltaria logo.
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