Por Rodrigo Prado*
Eu não saberia dizer exatamente quando ganhou vida.
Talvez tenha sido ainda criança, no interior de Minas, quando minha imaginação criava cenas, símbolos e mundos que eu não via fora de mim, mas sentia como se sempre tivessem existido. Ou talvez tenha sido mais tarde, já adulto, quando a sensação de deslocamento espiritual começou a pedir nome, chão e direção.
O que eu sei é que, por muito tempo, existiu em mim um chamado — silencioso, persistente — que eu não sabia exatamente para onde me levava.
No início de 2024, minha vida estava em movimento demais. Coisas acontecendo ao mesmo tempo, decisões, expectativas, ruídos externos e internos. Eu estava feliz, mas inquieto. Havia curiosidade, vontade, mas também receio.
Tudo aquilo que ouvi a vida inteira sobre terreiros, sobre macumba, sobre o que era “certo” ou “errado”, ainda ecoava em algum lugar. Mesmo assim, algo em mim já tinha decidido antes da minha mente.
Em março daquele ano, fui em busca do chamado…
E atravessei, pela primeira vez, o portão da Casa Axé das Águas.
Lembro do caminho com nitidez. Fui dirigindo sozinho, ouvindo música, tentando acalmar o coração. Estacionei na rua de trás, onde hoje é o fundo da Casa. Desci do carro sentindo que aquele não era um lugar qualquer.
Havia silêncio — não ausência de som, mas presença de respeito. O cheiro de incenso no ar, o clima misto de alegria e recolhimento. Antes mesmo de entender, o corpo já tinha entendido.
Na entrada, fui recebido pela Sandra. Foi o primeiro rosto, o primeiro sorriso, o primeiro acolhimento. Naquele dia, ela era alguém que me dava boas-vindas. Hoje, é uma irmã de santo que eu amo profundamente. Mas já ali, no primeiro instante, havia algo que dizia: você pode entrar.
Naquele dia, acontecia um ritual de cura com o Caboclo da Ilza Andrade. Era minha primeira vez em um terreiro. Eu não sabia os cantos, não conhecia os ritos, não entendia as dinâmicas. Mas, curiosamente, não me senti perdido. Senti que algo estava sendo alinhado em silêncio. Como se meu corpo reconhecesse antes da minha consciência.
Foi bonito. Foi forte. Foi verdadeiro.
Mas ainda não era tudo.
Alguns dias depois, voltei para a Casa — dessa vez para a minha primeira gira. Lembro do horário: por volta das 15h30, quando os portões se abrem. Mais uma vez, Sandra estava lá, me acolhendo em meu chamado. Entrei, sentei, observei. E então a gira começou.
O som do atabaque preencheu o espaço de um jeito que não dá para explicar sem viver. Os cantos, a corrente, a alegria compartilhada, a firmeza dos passos, o brilho nos olhos de quem estava ali servindo.
Havia jovialidade e, ao mesmo tempo, uma maturidade profunda. A condução de Mãe Lorrane e Pai Fábio carregava sabedoria, cuidado e presença. Nada era excessivo, nada era vazio.
Eu batia palmas, observava cada detalhe, entregava o corpo à experiência. Não estava tentando entender — estava sentindo. E, em algum momento, a certeza veio inteira, sem dúvida alguma: eu tinha me encontrado. Estava respondendo ao meu chamado. A sensação era clara, quase física. Como estar no colo de mãe depois de muito tempo andando sozinho.
Lembro de uma frase dita por Mãe Lorrane que ficou ecoando em mim, atravessando camadas: “Axé é troca.”
Ali, aquela frase deixou de ser conceito e virou vivência. Eu percebi que não estava apenas recebendo algo — eu também estava sendo chamado a cuidar, respeitar, participar, trocar.
Durante a gira, memórias antigas emergiram. Imagens da infância, da minha cidade natal, daquilo que eu imaginava sem saber nomear. Foi como se fios soltos da minha história começassem a se amarrar. Entendi, ali, que o chamado não era novo. Ele só tinha encontrado morada.
Osun, de alguma forma, sempre esteve me chamando Eu só precisei chegar ao lugar certo para escutar.
Saí da Casa diferente. Não com respostas prontas, mas com uma paz que eu não conhecia. Meu olhar sobre a espiritualidade tinha mudado completamente. O que antes era distante, cercado de medo e preconceito, agora era chão, afeto e responsabilidade.
Com o tempo, esse pertencimento foi se aprofundando. O chamado de Oxum floresceu na minha vida.
Hoje, sou filho da Casa Axé das Águas com muito orgulho. Participo das atividades internas, sou cuidado pela Mãe Lorrane, pelo Pai Fábio, pelos meus irmãos e irmãs de santo.
Aprendo todos os dias. Me fortaleço. Me transformo. O respeito pela minha ancestralidade e pela minha espiritualidade se tornou um compromisso vivo, cotidiano.
Nada disso aconteceu de uma vez. E talvez nunca “termine”. O chamado é vivo. Mas algo essencial se assentou naquele primeiro atravessamento: desde então, a Casa vive em mim — não apenas como lugar físico, mas como experiência de comunidade, cuidado e axé partilhado.
Escrevo, pensando em quem chega como um dia eu cheguei: com curiosidade, medo, vontade e silêncio no peito. Escrevo para acolher. Porque, às vezes, tudo o que alguém precisa é saber que existe um lugar onde o corpo relaxa, o coração reconhece e o espírito finalmente descansa.
E, quando isso acontece, a gente entende: o chamado nunca esteve errado. Ele só estava esperando a porta certa se abrir para um mar de possibilidades.
Rodrigo Prado é filho da Casa Axé das Águas, designer, estilista e fundador da Ateliê Ganga.

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