Por Jair Santiago*
O som veio primeiro.
O couro esticado vibrando no ar, o grave dos atabaques atravessando o peito me alcançou ainda na rua da Casa Axé das Águas. Não era novidade. Era reconhecimento. Em poucos toques, meus sentidos apenas confirmam: isso eu já sei.
Os pontos começaram a ser cantados e, com eles, uma sensação difícil de explicar: eu parecia saber. Algumas melodias já moravam em mim. Não porque eu tivesse aprendido, mas porque meu corpo lembrava. Estavam no meu DNA ancestral.
Era 2024.
Mas o tempo não se comportou. Escorregou do calendário.
O menino que cresceu ouvindo os atabaques na roda de capoeira remexeu dentro de mim. O arrepio nos braços era o mesmo. A atenção suspensa, também. Aquela escuta profunda que não analisa, apenas respeita. Eu estava ali, adulto, mas atravessado por uma infância que reaparecia sem pedir autorização.
Só depois percebi o espaço ao redor.
Entrar na Casa Axé das Águas é atravessar um território que olha de volta. O chão pede licença. O ar carrega história. Na parede principal, acima dos assentamentos, a arte, majestosa, se impõe: Oxum e Iemanjá de mãos dadas. O dourado encontra o azul. Doçura e profundidade em equilíbrio.
Fui atingido por uma temporalidade difusa: própria da Casa Axé das Águas.
Foi nesse instante que outra memória se abriu — como quem puxa um fio antigo e descobre que ele nunca esteve tão solto.
Iemanjá já havia me atravessado antes. Muito antes da Casa Axé das Águas. Em Salvador. Rio Vermelho. Eu não entendia tudo, mas observava com olhos curiosos a fé, o encantamento, a devoção. O mar em festa. As oferendas chegando. As pessoas cantando, chorando, agradecendo. A Rainha do Mar recebendo o que lhe era entregue com amor, silêncio e gratidão.
Diante daquela imagem na parede da Casa Axé das Águas, nada disso voltou como lembrança distante. Tudo se atualizou no corpo. A mesma sensação de pequenez diante do imenso — e, ainda assim, de acolhimento. A Casa Axé das Águas não me apresentou Iemanjá. Mas deu um lugar especial pra Odoyá dentro de mim.
O chão frio sob os pés, o ritmo constante dos atabaques, a fumaça da defumação desenhando o ar — tudo conspirava para que o tempo deixasse de ser linha e virasse círculo. Passado e presente se misturavam com naturalidade. Não havia ruptura. Havia continuidade.
Lembrei do meu pai, um homem da água salgada. O mar era casa, respeito e mistério. Ele me ensinou, sem grandes discursos, a pedir licença à Iemanjá antes de entrar. A reconhecer que existem territórios que não se atravessam sem reverência. Esse foi meu primeiro contato com Orixá, mesmo sem saber chamá-la assim.
Outro Orixá também já havia ecoado em mim.
De novo Salvador. O Mercado Modelo. Uma pessoa numa barraca me olhou com firmeza e disse, sem rodeios: “Você é filho de Ogum.”
A frase não fez barulho. Mas ficou. Como ficam as verdades que ainda não encontram lugar para pousar. Segui vivendo. Sempre há prioridades. Sempre há desculpas quando o chamado exige entrega, mas ainda não estamos prontos pra nos dedicar.
Eu sabia — em algum lugar — que precisava cuidar da minha espiritualidade. Já tinha ouvido isso antes. Mas foi de pé na Casa Axé das Águas que o meu coração decidiu fazer morada.
Lembro da porteira. Do Pablo chamando. Do primeiro rosto. Do filá branco. Dos óculos. Lembro do cheiro, do som, do corpo inteiro atento. Como se eu tivesse chegado atrasado a algo que sempre me esperou.
Fui ficando. Primeiro como consulente, como alguém que precisava ouvir mais do que falar. Sentir mais do que entender. Até perceber que não bastava estar ali — era preciso se comprometer.
Quando entendi que ali havia aprendizado disponível, soube que era hora. Entrei no Curso de Desenvolvimento Mediúnico. Não para me tornar alguém novo. Mas para lembrar quem eu era.
Segui presente. Do meu jeito. Corpo e alma. Nas giras, nas aulas, nas vivências.
Até que veio o chamado para cambonar.
Cambonei o Seu Zé Pilintra da Thaís. E ali mais uma dobra do tempo aconteceu. As palavras do Seu Zé não falavam apenas com o consulente. Falavam comigo. Cambonar me ensinou algo que eu ainda não tinha nomeado: servir também é ser atendido.
As mensagens não acabam quando o atendimento termina. Elas ecoam. Caminham com a gente. Assentam devagar. Reorganizam a vida. Tocam a alma.
Quis mais daquele aprendizado.
A espiritualidade foi me dando as pistas. Um gesto aqui. Um chamado ali. Até que ficou claro: estava chegando a hora de pertencer de verdade ao terreiro.
Quando o convite chegou, minha vida mudou.
O homem que antes delegava a espiritualidade, hoje chega cedo. Limpa o chão. Cuida do espaço. Aprende observando. Aprende servindo. Aprende olhando os irmãos:

O cuidado silencioso e atento na manutenção.
As flores preparadas com intenção e carinho,
O ritmo das palmas que purifica o corpo,
O sangue das Ogãs no couro dos atabaques,
O acolhimento na porteira,
O zelo nos detalhes,
A alegria que sustenta o coletivo.
Cada gesto, afeto e movimento do Pai Fabio, da Mãe Lorrane, dos irmãos da corrente também me ensinam quem eu sou, quem posso ser.
Em 2025, a Casa Axé das Águas me deu uma família maior do que eu imaginava possível. Uma família que não exigiu performance, apenas presença. Que me acolheu por eu ser eu mesmo.
Nesse chão, reescrevi meu casamento. Reescrevi minha história. As memórias do passado finalmente encontraram lugar no presente.
Hoje, quando olho para Oxum e Iemanjá na parede da Casa Axé das Águas, entendo: nada começou ali. Mas tudo se organizou ali. Ganhou contornos. Encontrou calma.
Carrego minhas guias no peito e minha fé por onde eu vou.
E sigo tentando devolver ao chão da Casa Axé das Águas tudo o que ele me oferece todos os dias.
Que eu honre meu Ori,
meus Orixás
e meus guias.
*Jair Santigo é filho da Casa Axé das Águas.
Casado com uma filha da Casa.
Pai de dois meninos.
Ciclista, executivo, curioso, filho de Ogum, Oxaguian e Oxum.

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