Vanessa dos Santos*
Em março de 2020, o mundo fechou as portas.
As ruas esvaziaram, os corpos se recolheram e o medo — um visitante insistente — resolveu ficar mais tempo do que o esperado. A vida ficou suspensa. Prendemos a respiração. Seguramos o ar. Pausamos os sonhos. O futuro virou ponto de interrogação.
A macumba, como quase tudo naquele momento, precisou encontrar novas formas para continuar existindo. Sem chão. Sem ponto. Sem toque.
Eu já tinha começado a me aprofundar na Umbanda. Havia curiosidade, vontade de aprender, alegria de me encontrar. Só que a pandemia interrompeu tudo. Enquanto cada um era seu próprio terreiro, a macumba, que sempre foi encontro, corpo e presença, também precisou se reinventar.
Faltava o conselho do Preto Velho. Faltava o abraço do cambone. Mas a vontade de aprender seguia ali, insistente.
Foi nesse recorte estranho da história que a espiritualidade encontrou um jeito inesperado de chegar até mim, deixando suas pistas, seus sinais, me atingindo como eu menos esperava.
Era um dia igual a todos os outros de lockdown. Entrei no Instagram sem grandes expectativas, só pra passar o tempo, quando apareceu uma publicação simples, direta, quase despretensiosa:
“Axé! #playnamacumba”
Era só isso. Mas não era só isso.
Um detalhe me atravessou: um colega do trabalho tinha curtido aquele post. Fabio Oto.
Eu o conhecia de outro lugar: da rotina, da tela do computador, do ambiente corporativo. O algoritmo fez o cruzo. A espiritualidade, como sempre, cuidou do resto — no tempo dela.
Dias depois, um story: “Grupo de estudos para desmistificar a macumba.”
Senti o alívio correr pelo meu corpo. Era como se alguém tivesse aberto uma fresta numa janela fechada há meses. Era a janela pra espiritualidade.
Cliquei no link, me inscrevi e fiquei esperando — ansiosa como quem sente que algo importante está prestes a acontecer, mesmo sem saber exatamente o quê. O tempo corria lento na espera.
No dia marcado, fui adicionada ao grupo de WhatsApp. Recebi o link. Horário definido. Entrei no Zoom. A tela se acendeu, os rostos começaram a aparecer, as vozes se misturaram.
E a primeira coisa que eu disse estava presa na garganta havia dias: “Fabio, tu é macumbeiro?!”
Ali, o respeito que sempre existiu no ambiente de trabalho fez a travessia para o espiritual. Não houve ruptura. Só continuidade.
Essa foi a minha estreia. Foi assim que comecei minha jornada ao lado do Fabio e da Lorrane. Sem casa, sem chão, sem gira, sem atabaque, mas com muito axé e boas risadas. Aquele primeiro encontro já tinha a energia de começo de algo importante, transformador, mas ao mesmo tempo, leve e divertido.
Não me esqueço de uma das figuras mais icônicas daquela fase inicial: o Cid Moreira da macumba.
Durante os exercícios de conexão com os ancestrais, a voz do Fabio ficava tão grave, tão solene, que era impossível não rir.
Ali, entre as gargalhadas, a escuta atenta e muita autoanálise, algo começou a se formar — não só um grupo de estudos, mas uma comunidade cheia de afeto, ainda que separada por telas.
Os meses passaram. As rodas de conversa continuaram. O Play na macumba acontecia. Eu já me reconhecia nas ideias, nos exercícios, no axé. Dentro de mim, algumas perguntas começaram a surgir, sempre tímidas, mas insistentes:
“Será que um dia esse casal vai abrir um terreiro?”
“Será que eu vou ser isso que eles chamam de cambone?”
Essas perguntas vinham carregadas de memórias antigas. Porque, nas outras casas por onde passei, sempre ouvi a mesma coisa, quase como sentença:
“Você não vai dar consulta. Não vai ser médium de atendimento.”
Até que, em uma dessas rodas, o Fabio disse algo que virou tudo do avesso, como quem muda o eixo da conversa sem levantar a voz:
“Você não precisa estar incorporada para ajudar as pessoas.”
Aquilo foi um divisor de águas. Senti o impacto dentro de mim, como um rio mudando de curso.
Algum tempo depois, veio a pergunta que selou destinos, lançada com leveza, mas cheia de propósito: “Se um dia eu e a Lorrane abrissemos um terreiro, vocês participariam?”
A resposta foi imediata, coletiva, atravessada de certeza:
“ÓBVIO QUE SIM!”
Quando o mundo começou a flexibilizar, veio a notícia: o terreiro ia existir.
.
A macumba ia ganhar chão
Ia ganhar cheiro, corpo, parede, toque, presença.
A construção do terreiro coincidiu com o período em que o mundo começava, aos poucos, a se abrir depois da pandemia. Quando saiu a vacina, nos encontramos presencialmente pela primeira vez. O olhar demorou um segundo a mais. O corpo estranhou. Era gente de verdade outra vez.
Essa primeira vez no terreiro aconteceu quando tudo ainda era pequeno, na casinha. O espaço era íntimo.
A Casa ficou um tempo sem abrir ao público. Eram atividades internas. Pouca gente. Muito cuidado.
Com a primeira turma do curso de desenvolvimento mediúnico, chegou a hora de transformar a teoria sobre a macumba em prática.
Eu nunca vou esquecer a primeira gira, aquela em que o desenvolvimento deixa de ser ideia e vira corpo em cena. Eram os Pretos Velhos chegando. A Mãe olhou pra turma e dividiu com a delicadeza firme de quem sabe conduzir: uns para cambonar, outros para atender. Eu fiquei no atendimento.
Por dentro, eu era furacão de Iansã. A cabeça correndo na frente, tentando dar conta de tudo: o canto, o tempo, o que fazer com as mãos, onde olhar, como respirar sem parecer que eu tinha esquecido de ser gente. Eu tentava absorver o mundo inteiro de uma vez só.
E foi aí que ela chegou.
Vó Maria da Cachoeira, minha preta velha e guia de frente, falava manso. Tranquila. Serena. A voz dela parecia abaixar o volume do mundo. Ela me ensinava sem pressa — como quem sabe esperar o tempo do coração reaprender a bater no compasso certo.
Quando a Casa abriu ao público, eu era pura emoção. Tremia tentando acompanhar os movimentos, o ritmo das entidades, o tempo da gira. Mãos geladas, olhos atentos, coração preenchido, cabeça a mil. Eu não sabia exatamente o que fazer. E no fundo, tinha consciência de que o não saber também fazia parte.
“O que fazer quando o guia está em terra? É pra cantar? O que eu anoto? Será que eu fico quieta?“
Eu fazia tudo ao mesmo tempo e só torcia pra dar certo. Sempre dava.
Aprendi a ser cambone assim: observando tudo, transformando erro em aprendizado, rindo de mim mesma pra não endurecer. Aprendi com o tempo, com os guias, com a generosidade de quem já caminhava pelas estradas da macumba há mais tempo.
Era confuso e engraçado.
Era aprendizado puro, daqueles que entram pelo corpo e ficam.
Fiquei um ano inteiro como cambone. Um ano inteiro vivendo a gira de dentro. No fim de cada trabalho, eu ria sozinha, revivendo os atendimentos no caminho de volta.
Foi um ano aprendendo a cuidar do outro — enquanto eu absorvia tudo o que podia para mim. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio dizia alguma coisa. A macumba ensinava ali, no detalhe, no que não era dito em voz alta.
Alguns atendimentos não ficaram só na lembrança.
Ficaram gravados no corpo.
O Marinheiro da Thais, por exemplo, que durante todo o atendimento me olhava e dizia:
“Anota aí, menina. E presta atenção, que isso é pra você.”
Aquilo ficou. Ficou como conselho e como afeto.
Hoje, olhando para trás, é quase impossível imaginar que aquelas giras com três ou quatro médiuns e um cambone para dois médiuns se tornariam o que a Casa é hoje.
.
Foram muitas as primeiras vezes que me marcaram.
Quase dois anos depois do Play na macumba, o primeiro atendimento aberto ao público finalmente chegou. Não veio com alarde. Veio como as coisas importantes costumam vir: devagar por fora, urgente por dentro.
Era a primeira gira do ano. Gira de guia chefe. Poucos médiuns no terreiro, aquele silêncio carregado que antecede algo grande. Lembro da conversa com o Marinheiro da Thais — simples, direta, dessas que parecem casuais, mas mexem tudo por dentro. Depois dela, não teve mais muito o que pensar. Algo em mim se ajeitou no lugar certo. Eu sabia. Era hora.
O coração batia mais rápido, o corpo inteiro atento, como quem pisa num território novo com respeito. Não era ausência de medo. Era coragem.
A gira era de guias chefes, daquelas que abrem caminhos e pedem presença inteira. A maioria da Casa tinha caboclo como guia de frente, e a energia das matas estava intensa, firme, vibrando no chão. Eu atendi com o Seo Pena Branca.
Ali, naquele instante, não era mais ensaio. Era travessia. A macumba me atravessou.
Dentro de mim era só pensamento atropelado, um atrás do outro, sem pedir licença:
“Sou eu que tô gritando? Esse brado é meu?”
“Tá certo isso?”
“Meu joelho… Pera, não tô sentindo meu joelho.”
“Ué, como essa cerveja preta não amarga?”
Tudo acontecia ao mesmo tempo. Por dentro, um susto atrás do outro e a tentativa de entender.
Por fora, o trabalho seguia.
Seo Pena Branca atendia do jeito dele. Falava bravo, firme, com aquela sabedoria que não precisa se provar. A voz inconfundível parecia atravessar o terreiro inteiro e, ainda assim, chegar mansa em quem precisava ouvir.
Aquilo, pra mim, foi mágico.
Não de espetáculo — mas de reconhecimento. Como se o corpo estivesse sentindo algo que a cabeça ainda estava tentando alcançar.
A esquerda me marcou. Pombagira foi a primeira a rodar. Rodava tanto que eu não entendia o porquê — só sentia o chão girar junto, minhas pernas tentando acompanhar o que ainda não tinha nome. Foi um tempo até eu entender que aquela era Dona Quitéria.
Já Seo Sete foi o primeiro, bravo comigo porque não me queria de saia. Eu não tinha entendido. Na hora só senti o impacto. Foi assim que Seo Sete Catacumbas chegou: riscando ponto no chão do terreiro, se apresentando do jeito dele, arrancando minha saia, como quem diz sem palavras: é assim agora. Sem cerimônia. Mas com amor.
Apesar da intensidade, nada foi solto. Eu sempre estive amparada. Tudo aconteceu com calma, incentivo e cuidado. O Pai, a Mãe, os médiuns mais experientes na macumba estavam sempre por perto, orientando sem pressa, lembrando que não era corrida. Que era caminho. Que era passo a passo, gira a gira.
Fui aprendendo que respeitar o tempo do corpo também é fundamento. Que sentir vem antes de entender.
Com o passar das giras e dos aprendizados, fui deixando de ser cambone e passando a atender mais, até me tornar apenas médium de atendimento. Foi uma transição lenta, quase silenciosa — como quem muda de lugar sem perceber; quando vê, já está ali.
No começo, eu atendia mais nas giras de Caboclo e Preto Velho. Eram energias mais familiares, que chegavam sem alarde, se acomodavam no corpo com respeito e iam me guiando aos poucos. Não empurravam. Conduziam. Era como uma dança, que eu conhecia sem nunca ter ensaiado: movimentos lentos, a respiração encontrando o ritmo certo, um balé em que o corpo aprendia a confiar em vez de controlar.
E eu me deixava levar.
Anos depois, a Casa Axé das Águas cresceu.
Cresceu como crescem as coisas vivas: sem alarde, firmando raiz. A família de axé cresceu junto. Começamos em dez, meio tímidos, meio sem saber viver a macumba. Hoje somos trinta e cinco — e cada nome carrega um pedaço dessa história.
O que nasceu no meio da pandemia, com a intenção simples de desmistificar a macumba, virou um terreiro vivo, pulsante, poderoso. Um lugar que aprende enquanto caminha, que erra, acerta, acolhe, recomeça.
Sempre houve suporte. Sempre houve carinho. Não como promessa, mas como prática diária. Cuidado como valor inegociável, que nos sustenta quando o chão parece escorregar.
Seis anos depois daquele primeiro Play na Macumba, sigo caminhando ao lado da Mãe Lorrane e do Pai Fabio. Minha história — e a da Casa — segue sendo forjada pelas águas de Oxum e Iemanjá, no ritmo da maré, no tempo que precisa ser.
E ainda há muito caminho pela frente.
Vanessa dos Santos é filha Casa Axé das águas, filha das águas e uma eterna erê curiosa

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