As águas na janela

Antes mesmo de atravessar o portão, a Casa Axé das Águas já era uma foz em mim. 

Primeiro, de longe. Pela constância. Pela ordem. Pela simplicidade com que se mostrava. Num tempo em que as aparências chegam antes dos fundamentos, havia ali um outro ritmo. A Casa aparecia sem espetáculo e me fez continuar olhando de longe. Seus posts. Suas oferendas. Suas cenas. Seus tempos e movimentos. Suas histórias. 

A Casa Axé das Águas ainda não tinha me recebido, mas eu já a media com o cuidado de quem carrega uma fé ferida.

Antes disso, foram anos vivendo o chão de terreiro, a disciplina, a escuta e sendo guiado com amor. 

Quando meu primeiro pai de santo faleceu e a casa onde eu cresci fechou, não foi apenas um espaço espiritual que desapareceu. Foi um lar. Uma família. Uma forma de estar no mundo. 

Quem vive terreiro sabe que uma casa de axé não é só um lugar onde se vai; é um lugar que reorganiza partes da gente por dentro. Quando ela fecha, nem tudo encontra outro chão imediatamente.

Depois disso, vieram as tentativas de recomeçar. E nem todas foram leves. Algumas experiências foram duras o suficiente para me fazer desacreditar, me afastar, me recolher. 

Apesar das dores, dos medos, era grande a falta que sentia, o amor que continuava existindo em mim por esse caminho mesmo depois de tudo. 

Com o tempo, fui voltando a cuidar das minhas entidades dentro de casa, com simplicidade, respeito e carinho. Apenas retomando um vínculo que nunca tinha morrido. 

No verão de 2024, fui guiado a entrar numa ruazinha. E ali estava ela, a Casa Axé das Águas. O portão aberto me permitiu espiar. Lá dentro, as yabás. Era dia de gira, mas eu não quis entrar. Apenas seguir. Sem pressa. Tomei meu tempo para observar. 

Em 2025, me senti pronto para entrar, passar pelos portões. Ver ao vivo e a cores, o que acontecia ali dentro. Ao final da gira, a Mãe Lorrane me recebeu com um sorriso e um abraço. Disse que eu seria sempre bem-vindo. Perguntou se eu estava bem. Se precisava de algo. Se eu tinha sido bem tratado. Me senti acolhido. 

Em 2026, decidi dar mais um passo. Perguntei pra ela se o curso de desenvolvimento mediúnico me vinculava à casa. Eu queria conhecer, sem me prender. E era possível. 

A Casa Axé das Águas, a Mãe Lorrane, a corrente… todos vivem Iemanjá.

“Pra ela sempre podemos voltar, suas areias estão sempre de braços abertos para nos receber, nos cuidar, nos lavar, outra e outra vez.”

A liberdade me prende. É como se, em vez de querer me colocar numa gaiola, alguém colocasse águas na janela. Eu sempre voltarei. 

A Mãe põe águas na janela

Então eu fui. 

Na primeira aula, senti paz. Uma sensação de estar, aos poucos, voltando para casa.

Alguma parte do meu corpo, cansada de vigiar, se assentou. 

Foi nessa primeira aula que senti, depois de muito tempo, a presença das minhas entidades.

Nossa dinâmica prática era de proteção espiritual. 

Formamos pares para enviar e receber energia. 

Fiquei com a Elissa, filha da casa, ela já tinha se identificado como autista antes, então me senti seguro. 

Autistas são extremamente sensíveis, só se mantêm onde há confiança. 

A dinâmica era apenas olhar em silêncio. 

Enviar energia apenas com o olhar. 

Ao final, sem me conhecer, sem saber minha história, meu passado, meus traumas, Elissa me abraçou e disse: “Você não precisa ter medo, está tudo bem, aqui é um lugar seguro.”

Ali, abraçado à menina dos cabelos vermelhos, eu chorei. 

Um choro que exu tentava tirar de mim há anos, enquanto eu me mantinha firme, forte e inabalável. 

Semanas depois, na gira de esquerda, Seo 7 Catacumbas deu passagem àquele mesmo exu que não encontrava meu corpo há tempos. Ele não disse nada. Apenas dividiu o espaço comigo, mostrando que naquele solo sagrado encontrava lar. 

As águas na janela.


Autor anônimo.


Imagem “Mãe é Mar”: Estúdio Bori

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