Abril. Mês de Ogum. Orixá que abre os caminhos, abençoa os ofícios, a coragem e as conquistas.
Naquele abril, a força de Ogum me convidava a ser potência, a olhar para o meu contra-axé. Onde há Pai Ogum, a energia é inesgotável, a vida pulsa, a prosperidade vence.
A verdade é que a prosperidade apresentada pela nossa Mãe, na Casa Axé das Águas, pouco lembra o conceito clássico de prosperidade, ligado aos bens materiais, às posses, ao status. Me senti contemplada. Não achava mesmo que prosperidade fosse só sobre riquezas, mas a Mãe ainda ia além.
“Tudo o que te circula”. A prosperidade podia sustentar toda a nossa existência. Prosperidade de saúde física, de equilíbrio emocional, de amor. Prosperidade espiritual, de energia, de capacidade intelectual, de performance profissional, de cuidado.
Naquele dia, falamos sobre a prosperidade ser o resultado do axé. Axé é energia vital. Quanto mais trocamos, quanto mais dedicamos axé, mais recebemos axé de volta. Quanto mais circula, mais cresce.
Esse axé, que é dinâmico, inquieto, vivo, precisa da nossa energia, do nosso afinco, da nossa disposição para ganhar seus rumos, abrir caminhos pela vida, correr pelas nossas veias, encontrar os nossos.
Há tempos, eu vinha olhando com carinho para isso e não sabia. Uma conversa na terapia. Um jogo de tarô. Meu axé precisava de mim, e eu o sabotava e me autossabotava.
Meu axé precisava que eu o permitisse circular, mas eu dizia para mim mesma: “não, imagina, não vou fazer isso agora”, deixava para depois o que me faria bem. Eu procrastinava, postergava, desconfiava de mim mesma. Contra-axé.
Ali, ouvindo a palestra, eu me dediquei a analisar em quais situações eu era a principal fonte do meu contra-axé, quando eu mesma estagnava, interrompia, segurava meu axé com as duas mãos.
As principais fontes de contra-axé: eu ou o outro?
“Quantas vezes você pediu conselhos aos seus guias, aos seus amigos, à sua mãe, ouviu, agradeceu, até anotou, colocou em uma gaveta e nunca mais abriu?” Você recebeu a energia do outro e a estagnou, não movimentou com suas ações. Contra-axé.
“Quantas vezes você procrastinou agendar aquele médico, fazer um exame importante, cuidar do seu corpo, se movimentar pela sua saúde, pela sua existência, pelo bem do movimento em si?” Contra-axé.
“Quantas vezes, para agradar o outro, você disse “sim” querendo dizer “não”, não conseguiu preservar seu axé, impor limites, ser fiel a você mesma?” Se você não cuida do seu axé… contra-axé.
“Quantas vezes você se viu capaz de realizar algo que aspirava muito, mas se sentiu pequena diante do sonho, negou seu talento, duvidou da sua competência, mesmo sabendo que, no fundo, seria incrível?” Autossabotagem. Contra-axé.
“Quantas vezes você já contou suas metas para alguém que admira e essa pessoa te descredibilizou, deu limite à sua ambição, encolheu sua potência?” Contra-axé.
Inveja. Fofoca. Medo. Briga. Desequilíbrios. Vício. Culpa. Vazio. Desperdícios. Incoerências. Vaidade. Contra-axé.
Eu ou o outro?
Acredite no seu axé. Espalhe por aí!
“Confie em você.” Essa fala de uma irmã de santo ecoou em mim e ressoou depois da palestra. Me vi pensando no quanto a gente cuida dentro da Casa, em quanto afeto há em reconhecer e celebrar o que há de melhor nos irmãos e irmãs, quanto axé!
Quando eu passei a viver o terreiro, ser parte da corrente, primeiro veio o sentimento de pertencimento, que logo foi sustentado pelo cuidado.
É da Casa Axé das Águas cuidar, ser lar. Doçura. Carisma. Acolhimento.
Há algo de grandioso em cuidar, certamente. Mas axé também é se deixar ser cuidado, ser visto, ser celebrado. Pedir por cuidado sempre que é preciso também é axé.
Quando alguém está mais vulnerável, seja por qualquer motivo, e posso ajudar, isso me fortalece. Seja uma troca de experiências, uma conversa, seja a troca de energia, seja uma troca de olhares gentis. Há axé em cada uma das nossas pequenas escolhas.
Agradecer e reconhecer o que você já conquistou. Dar valor ao seu próprio esforço. Honrar de onde você veio e onde você sonhou em chegar, notar que você está onde você escolheu. Isso é axé. Isso é prosperidade.
Um sorriso. Uma mensagem. Estender a mão para o outro. Reconhecer a parte de você que é sagrada. Axé.
Axé é amor. Amor próprio. Amor compartilhado.
Celebrar também é axé. Celebrar com quem se ama. Há anos eu vibro com grandes vitórias, pequenas conquistas. Um brinde, axé que se espalha. Não só entre os meus, entre aqueles que vivem isso comigo. Comemorar é agradecer a quem está no plano espiritual cuidando da minha jornada, abrindo meus caminhos, me guiando pela vida para ser um ser humano melhor.
E talvez prosperidade seja exatamente isso: perceber onde a vida flui e onde nós mesmos represamos. Entender que nem sempre falta caminho — às vezes, falta coragem de atravessá-lo.
Contra-axé é tudo aquilo que interrompe o movimento da nossa própria abundância. Axé é confiar, agir, cuidar, permitir.
No fim, prosperar é menos sobre acumular e mais sobre sustentar. Sustentar o que se ama, o que se acredita, o que se constrói dentro e fora de si.
Porque aquilo que circula, cresce. E aquilo que a gente honra, floresce. Axé.
Luciana de Simone é fundadora da Dun Velas, mãe de bulldogs, dentista nas horas pagas e designer de interiores nas horas vagas. Filha da Casa Axé das Águas, abençoada por Iemanjá, Iansã e Ogum.
Imagem: Cortes de Ogum por Estúdio Bori.

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