15 de maio de 2022. Domingo de manhã.
Naquele dia, eu acordei ainda mais ciente do meu novo papel nesse mundo: Pai de Santo.
Abri a porta, saudei Exu Morcego, Exu Cobra e entrei, conferindo se tudo estava no lugar depois da festa.
Silêncio.
Um dia antes, a casa estava cheia de vida. Eu e a Mãe Lorrane abrimos — pela primeira vez — as portas da Casa Axé das Águas para nossa família, nossos amigos e nossos primeiros filhos de santo. Uma festa bonita e cheia de alegria.
Ver aquele espaço ocupado por risadas, abraços, flores, os sons dos atabaques e toda aquela fé me fez sentir, mais uma vez, que tudo valia a pena. A Casa finalmente cumpria seu destino no plano físico: louvar os Orixás e honrar os ancestrais.
Desde aquele primeiro dia até hoje, toda vez que eu entro aqui, eu agradeço.
Agradeço pela oportunidade concedida de ter esse espaço sagrado.
Agradeço pela responsabilidade.
Agradeço pela confiança.
Foram meses de muito trabalho até a Casa ficar pronta.
Desde o inicio da busca, nas madrugadas, olhando os sites de venda de imóveis, a demolição da casa que existia aqui, a idealização com a arquiteta, passando pela firmeza dos elementos sagrados no solo, acompanhei tudo de perto.
Seo Morcego sempre esteve por aqui também. Seus vultos nas escadas não passavam despercebidos nem pelos pedreiros. O guardião da casa inspecionava tudo, lembrando que estávamos amparados por seus olhos atentos.
A pintura das Yabás de mãos dadas selou o fim da obra. Vê-las ganhar cor no nosso terreiro me emocionou, e as águas transbordaram.
Quando a Casa finalmente ficou pronta — assentamentos no lugar, portas instaladas, alarme ligado — eu já tinha construído também um enorme senso de responsabilidade, como Pai de Santo.
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Ser Pai de Santo exige muita responsabilidade
Ser Pai de Santo é conduzir, orientar cada um dos filhos, estar disponível para sustentar caminhos, para ajudar quem chega buscando direção.
A palavra Pai carrega isso.
Carrega zelo.
Carrega cuidado.
Carrega presença.
Desde os primeiros filhos, sempre existiu uma alegria por ser esse porto seguro.
Ser Pai de Santo é cuidar não só da espiritualidade de cada filho de santo, mas zelar pelo bem-estar de cada um, orientar como é possível, tanto na mediunidade e na vida em comunidade, quanto na vida da porta pra fora.
Eu sou o Pai de Santo que reza pelo Ori de cada um.
Ser Pai de Santo, pra mim, é cuidar de todos os filhos diante dos nossos assentamentos.
Ajoelhar-se diante de Exu e pedir pelos filhos. Pedir estratégia, paciência, flexibilidade.

A Ogum, que nós possamos aprender a escolher as nossas batalhas com sabedoria e consciência.
Pra Xangô, que cada um se respeite, respeite seus limites e os imponha, sem se anular.
Em Oxalá, que haja fé: fé em si mesmo, fé na nossa corrente, fé uns nos outros.
Em Obaluaê, que possamos cuidar da nossa saúde mental.
Diante de Iemanjá, ela me mostra que é preciso que a gente aprenda, assim como as ondas, a deixar na areia o que não nos pertence mais. Levar pra dentro do mar apenas aquilo que é realmente nosso, o que nos faz feliz. Aprender o desapego.
À Oxum, peço que cada um possa se amar de verdade, mas também amar os irmãos, amar a corrente, ser mais acolhedor, mais doce, mais gentil.
Na presença de Ajé, é rezar longamente e lembrar do que cada um dos filhos faz, do que vive, pra endereçar os pedidos de acordo com cada necessidade, sempre pensando na abundância, na prosperidade e nos sonhos de cada um.
É rezar dentro e fora da casa. Rezar por quem está doente, por quem está triste, por quem está atravessando um momento difícil. Rezar no silêncio da minha casa, enquanto minha filha de sangue dorme. É agradecer também, agradecer pelos pedidos atendidos, pelas bênçãos, pelas conquistas de cada filho. Celebrar, brindar e honrar nossos ancestrais e nossos Orixás por tudo.
Cuidar da família também é cuidar da casa, no sentido mais literal que há. Estar aqui, quando mais ninguém vem, pra mudar um fio de lugar, ajeitar uma porta, consertar o ar-condicionado, lavar a caixa d’água. É realmente zelar. E é sempre gratificante porque é a Casa dos Orixás. Aqui é onde honramos nossa ancestralidade.
É cuidar também quando todo mundo vem, quando os filhos se reúnem pro Osé, pra faxina, pra varrer a escada, tirar o pó, lavar o chão e levar o lixo pra fora. E, ao fim do dia, agradecer. Me orgulho de ser o Pai de Santo que agradece pela cumplicidade, pela presença, pela dedicação, pelo empenho em cuidar da nossa casa, da Casa dos Orixás, com amor e carinho, honrando quem veio antes, quem está agora, quem ainda virá.
Mesmo no simples, nos detalhes, nas coisas cotidianas mais banais, lá está o sagrado. A espiritualidade está em todas as nossas ações. Principalmente pra nos lembrar que nunca estamos sós. Ainda que a vida pese, os problemas ganhem a força de correnteza e o mar se enfureça à nossa frente, há sempre espaço pra fé. Fé nas pessoas que cultivamos ao nosso redor. Fé em quem amamos. Fé de que podemos contar uns com os outros. Fé de que há com quem dividir as alegrias e as dores.
Na caminhada espiritual é igual. Se cultuarmos nossos orixás e ancestrais com frequência e amor, a espiritualidade também torna a caminhada mais leve. É preciso ter fé!
Por ser filho de Oxalá, a fé sempre me moveu na vida. E é assim que eu sigo:
Não falta a fé de que o terreiro é casa de Orixás e ancestrais.
A fé de que a espiritualidade está sempre à nossa frente, guiando nossos passos.
Tenho fé de que cada filho de santo está fazendo o seu melhor.
Fé de que estou honrando quem veio antes de mim.
Fé na vida — porque ela é boa, quando aprendemos a olhar com as lentes certas.
4 anos depois. Há 4 anos sendo Pai de Santo, tanto mudou em tão pouco tempo.
Quantas vidas já cruzaram nosso portão? Quantas dores e alegrias? Quantos filhos e filhas de santo? Quanto aprendizado? Quanto ensinamento? Quantas águas? Marés altas. Marés calmas. Águas rolando pelas pedras. Rios buscando mar.
Alguns anos depois, seguimos sendo abençoados. Seguimos certos de quem somos, de quem queremos ser, do nosso propósito e dos nossos porquês. A Casa Axé das Águas existe pra cuidar da corrente e louvar os orixás e ancestrais. Isso se mantém. É a razão da nossa casa existir.
Pai Fábio é dirigente da Casa Axé das Águas, filho de Oxalá e Xangô. Tem na fé o seu direcionamento de vida e zela pelo terreiro em sua força espiritual e em cada detalhe da estrutura física que sustenta a casa.
Imagens: Estúdio Bori

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