Mãe de Santo é rio encontrando o mar

No rio que mora yeyê ô
O doce deságua no mar

Quando Mãe Oxum
Abraça Minha Mãe Yemanjá”

O atabaque vibra.

São 15h30. A Mãe de Santo que habita em mim alerta à porteira: “Pode abrir o portão!”

Enquanto os consulentes se espalham pela Casa, eu corro os olhos em meus filhos de santo mais uma vez, observando a energia de cada um.

Viemos de tão longe. Há tanta história que uma gira não seria suficiente pra lembrar, mas posso tentar:
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Esquenta

Eu tinha apenas 24 anos.

Me lembro com nitidez. Era minha primeira vez em um terreiro de Umbanda em São Paulo.

Eu observava tudo: as pessoas, os detalhes, a ritualística, o altar, a curimba. Era como se meu corpo se reconhecesse diante do intangível, enquanto minha alma se acomodava entre os seus.

Era gira de Preto Velho. Quando Orixá Nanã veio em terra, o tempo decantou, assentou-se pra respeitar a matriarca, a avó de todos os Orixás, aquela que ensina a honrar o tempo e as raízes.

As águas sob a superfície me encontraram e transbordaram. Chorei. Repentinamente, eu chorei águas que eu desconhecia. Nanã, orixá da sabedoria e da ancestralidade, senhora dos mistérios da vida e da morte, me preenchia com uma nova vida, tocando vazios indizíveis.

Nascia uma nova Lorrane, com um novo propósito.

A espiritualidade chegou com sua força, me preenchendo. A cada gira, algo se firmava por dentro, como se o invisível colocasse cada coisa em seu devido lugar. Cada orientação, um norte. Cada silêncio partilhado me aproximava de uma verdade antiga, uma clareza impossível de explicar: eu não estava escolhendo um caminho, estava apenas chegando aonde sempre deveria estar.

Não era desejo, era travessia. Era o meu caminho, meu compromisso espiritual. O invisível ia me conduzindo com a potência das águas, sem pressa e sem desvio. Do primeiro passo tímido diante de um congá até o momento em que me vi diante da Casa Axé das Águas, eu era rio seguindo para o mar.

O mundo espiritual nunca foi sutil sobre isso.

Antes mesmo de eu admitir para mim mesma, esse destino já se anunciava como missão. O recado vinha de muitos lugares, em muitas linguagens, como água encontrando caminho entre as pedras. Nos búzios, nas cartas, nas giras, nas palavras dos meus sacerdotes, até nas memórias que atravessam outras vidas, a mensagem era sempre a mesma: havia um terreiro me esperando.

Eu fui preparada a vida toda pra esse momento. As mulheres da minha vida, minha mãe, Luciana Alves, e minha avó, Nair Alves, foram as minhas primeiras referências de fé, de confiança absoluta. Com elas que aprendi sobre força sem endurecimento. Sobre firmeza sem ausência de afeto. Sobre sustentar uma casa, uma família e uma vida inteira sem perder a doçura.

Coragem, alegria e cuidado foram fincando minhas raízes, me atravessando, me constituindo. Fazendo de mim uma mulher que acolhe, orienta e permanece.

Esse feminino sempre me encantou.

Talvez porque ali já existisse o primeiro desenho da mãe de santo que um dia eu me tornaria.
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O recado da Mãe de Santo

Em todo dia de gira, impreterivelmente às 16 horas, o portão se fecha. A curimba silencia.
Com o microfone em mãos, a mãe de santo que habita em mim toma seu lugar à frente do congá. Olho nos olhos de cada consulente diante de mim e, naquele instante, assumo meu papel.

Desde o início, essa missão sempre veio de mãos dadas com dois sentimentos profundos: gratidão e responsabilidade.

Gratidão por poder honrar meus ancestrais, por reconhecer que esse caminho não começou em mim, mas apenas continua através de mim. Eu sou continuação de uma história muito maior do que eu.

E responsabilidade. Porque ser Mãe de Santo nunca foi sobre ocupar um lugar de destaque, mas sobre sustentar uma entrega. Existe um compromisso com cada vida que chega, com cada dor que atravessa o portão, mas também com toda a egrégora espiritual que sustenta nosso chão – que ampara, observa e confia.

E foi entre a entrega e a responsabilidade que encontrei farol. Assumir esse compromisso também é reconhecer quem me ensinou a sustentá-lo, a lapidar nossos valores essenciais, nossos fundamentos.

Sempre tive o Pai Fábio ao meu lado. Ele sustentou cada passo, cada dúvida, cada travessia, aprendendo junto comigo à cada arrebentação. Mas nunca estivemos só.

A Ilza Andrade nos ensinou a navegar pelas águas de Oxum e Iemanjá, acolhendo a calmaria e enfrentando as correntezas, sem perder nosso propósito.

Entrar no mar com Ilza é despir-me do ego antes de mergulhar. É deixar na areia qualquer vestígio de vaidade, de orgulho ou pressa, para dar lugar ao tempo, à energia e à potência da espiritualidade.

Servir com humildade, simplicidade e compromisso são seus princípios. Não importa o quanto se incorpora, o quanto se sente ou o quanto se vê, a força espiritual, por maior que seja, precisa sempre ecoar caráter, ética e cuidado com o outro.

Com a Ilza, há sempre um lembrete: ser Mãe de Santo é uma oportunidade de ser melhor a cada dia. É se lapidar, se cuidar, se conhecer, se acolher.
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Salve a abertura da gira!

Assim como eu, a Casa Axé das Águas nasceu duas vezes.
Primeiro no invisível. Depois no concreto.

Antes de ter chão, tinha fundamento.

No plano físico, cada tijolo, cada grão de areia, cada planta no jardim passou pelos olhos atentos do Pai Fábio. Foi ele quem sustentou o ritmo dessa construção, alinhando tempos e movimentos pra que a Casa existisse desde fundação ao que ela é hoje.

Cada assentamento em seu lugar, cada fundamento firmado, cada ponto riscado carrega intenção. Nada foi feito por acaso. Há ali o atravessamento de tudo o que aprendemos com líderes espirituais, mentores e professores que nos deram base, direção e responsabilidade para sustentar esse axé.

No plano espiritual, minha Cabocla Iara foi bússola nessa travessia. Foi me moldando em suas águas. Foi ela quem me ensinou a força que existe no fluxo, me guiando na missão de construir uma Casa das Águas, erguida para honrar Oxum e Iemanjá com leveza, acolhimento e firmeza. O rio que corre certo em direção ao seu destino. O mar que o recebe e o consagra ao chegar.

Eu fui sendo moldada na coragem, na intuição, na fluidez e nas lágrimas — que, às vezes, também são oração. Mas nunca me senti à deriva. Mesmo nas correntezas mais difíceis, havia a certeza de que eu estava sendo conduzida. A embarcação tinha destino.

Exu Morcego, meu guardião, guardião dos meus caminhos e dos meus silêncios, firmava cada decisão. Minha missão com o terreiro também é um compromisso com ele.

E, como Exu tão bem conduz, foi em meio a uma encruzilhada — no desconforto e na incerteza do início da pandemia — que fui colocada diante da decisão de abrir minha casa.

Ali, eu soube. Era o meu momento.

E, se fosse preciso, eu faria tudo de novo.

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Saudação à esquerda

Nós nos viramos pra rua, prontos para saudar a esquerda. Laroyê, Exu Morcego! Laroyê, Exu do Lodo! Laroyê Maria Padilha!

Mais um vez, a curimba pulsa. “Pra chegar até aqui, atravessei um mar de fogo“.

Terreiro é um espaço de vida pulsante. Terreiro nasce quando a vida entra. Quando o atabaque vibra. Quando as flores se espalham. Quando os olhares se cruzam e os sorrisos são abraços à distância.

Para mim, a lembrança mais potente desse começo tem data: 14 de maio de 2022. O dia da inauguração da Casa Axé das Águas.

Estar diante das Yabás, diante da pintura majestosa de Iemanjá segurando as mãos de Oxum, enquanto eu estava entre os meus, entre meus primeiros filhos de santo, meus amigos, minha família… me tocou de uma forma indescritível.

Foi ver o invisível ganhar corpo. Tudo aquilo que antes existia apenas no plano espiritual, enfim, se tornou chão, presença, afeto.

Foi quando eu senti que realmente a nossa maior oferenda aos Orixás era a nossa própria felicidade.

Mas para permanecer em um terreiro, é preciso estar constantemente encantado. Encantado pelas mandingas que não se explicam, pelo mistério, pelo desconhecido, pela fumaça da defumação.
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A Defumação

Entre a fumaça e o sagrado, eu me vi Mãe de Santo.

Eu me vi cuidando da espiritualidade de dezenas de outras vidas nesse plano. Vidas desconhecidas. Vidas que pouco ou quase nada sabiam sobre o ritmo do terreiro, o sussurro dos guias, as virtudes dos orixás.

Quando as portas realmente se abriram para o público, eu já tinha plena certeza da Mãe de Santo havia em mim: humana, gentil, honesta.

Como uma navegante experiente que se lança em águas nunca antes vistas, adentrei ao mar, consciente do meu papel: liderar a frota, aprendendo com as marés, com o tempo, com as pessoas.

Sempre me empenhei pra velejar sem perder o cuidado com quem vem ao lado. Afinal, o que sustenta esse itinerário é o respeito que reconhece a travessia de cada um, antes, durante e depois de mim.

O respeito também nos sustenta. Tenho um profundo respeito pela minha história, pelo rio que me trouxe até aqui, da mesma forma que honro profundamente tanto quem abriu caminhos antes de mim quanto quem ainda está aprendendo a ler a correnteza.

Longe do mar, o cerrado me ensinou, ainda lá em Goiânia, a beleza da simplicidade. Na minha terra, aprendi a acolher e a ouvir, e isso atravessa completamente a forma como eu cuido dos meus filhos e do meu terreiro.

Aqui tudo começa no amor e no acolhimento. Oxum e Iemanjá

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Orixás em Terra

Doce. Viver Oxum é ser profundamente doce. É ver beleza na profundidade, na harmonia, no cuidado. Olhar-se no espelho com orgulho de si. Capricho. Presença. Confiança.

Sal. Viver Iemanjá é ser mar. É acolher, estar de braços abertos pra receber. É saber a hora de devolver os filhos pra areia e deixá-los caminhar pela vida. Recolher-se. Silenciar.

Ser Mãe de Santo de Oxum e Iemanjá é guiar cada filho pelas correntezas, pelas águas turvas, pelas ondas que explodem nas pedras. É atravessar a fúria das águas que há em cada um.

Ser Mãe de Santo de Oxum e Iemanjá também é celebrar, transbordar a alegria das conquistas, orgulhar-se dos movimentos, do florescer, do brilhar. É contemplar a serenidade do mar que há em cada um.

Ser mãe de Santo de Oxum é ver os filhos compreenderem a infinidade do amor.
Ser mãe de Santo de Iemanjá é amparar suas cabeças para que valorizem a missão dada a cada um.

Todos nós vivemos Oxum e Iemanjá.

Em cada compromisso, em cada sorriso, em cada dia das nossas vidas, todos nós vivemos os Orixás. Não somos perfeitos, mas para cada virtude de Orixá que nos falta, há um tempo de buscá-la. Esse tempo não falha.

Viver Orixá, para nós, é fazer com que aquilo que aprendemos e recebemos no chão sagrado se traduza em postura, escolhas e relações no mundo. Aqui, a espiritualidade precisa ser leve, possível de ser vivida no cotidiano.

Viver Orixá, pra mim, é viver amor.

Amor é o princípio de tudo o que fazemos.

(Até o fim dessa seção, a editora mantém as palavras originais da nossa Mãe de Santo, pra que meus queridos irmãos tenham a oportunidade de ler, absorver e sentir o afeto de que há nesses dizeres.)

Eu sinto um amor tão grande pelo terreiro e pela minha caminhada que às vezes nem consigo explicar. É como muitas águas que vão se encontrando até virarem uma só: encantamento pelo desconhecido, alegria gigantesca em fazer o que eu faço e uma perspectiva de esperança e fé de que, a partir dali, a gente consegue tudo, porque não há nada que as águas não superem.

Isso me dá confiança, me motiva e me faz ter muito orgulho de ser quem eu sou e de quem eu estou me tornando.

Eu sou extremamente grata aos meus filhos de santo por embarcarem na filosofia da Casa Axé das Águas, por compartilharmos valores e por termos trocas tão ricas. O empenho deles, a presença, o jeito como se colocam à disposição da Casa e da espiritualidade me enchem de orgulho; eu tenho muito orgulho de quem eles são e de quem estão se tornando ao meu lado.

Quanto à espiritualidade, eu só agradeço pela oportunidade que me foi dada nesta encarnação. Peço todos os dias para fazer jus ao que prepararam para mim, para aprender cada vez mais com eles e para ser digna de ser filha de Iemanjá, de Oxum, de Padilha, de Morcego, de Iara e de todos aqueles que me querem bem.

É a eles que eu devo o chão que eu piso, a coragem que eu tenho e o axé que sustenta a Casa.

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A Chegada dos Guias

Enquanto os guias vão chegando pra atender, eu me posiciono de volta na curimba, meu lugar favorito.

À minha frente, um a um vai sendo abraçado, acolhido por seus guias, os rostos vão ganhando novas expressões, as mãos se movimentam, os olhos correm pelos consulentes.

Eu continuo a mesma, firme, sentindo as energias, chamando os pontos conforme a casa pede.

A verdade é que não importa se eu estou incorporada ou não, se eu estou no terreiro ou na minha casa, se estou de branco ou de pijama. Eu sempre estou trabalhando. Dormindo. Acordada. Eu vivo o terreiro o tempo todo.

Quando o atabaque silencia, as luzes se apagam e os filhos vão embora, a Mãe de Santo permanece amparando as dores, sustentando a Casa e protegendo quem precisa.

Há muito sendo feito, desfeito, transportado na imensidão do invisível.

Nem tudo eu respondo em palavras. Ainda assim, tudo o que chega até mim, mais cedo ou mais tarde, eu acolho ou encaminho. Mesmo quando ninguém sabe, ajeito em silêncio, coloco em ordem no plano que raramente se vê, mas sempre se sente.

Há muito amor nesse invisível.

Sou de Iemanjá. Zelo, acolho e protejo. Gosto de profundidade, de consistência, de quem persiste, de quem tem vontade, de quem honra o chão que pisa.

Sou de Iemanjá. Sou rigorosa. Tenho palavra firme. Cobro postura, respeito, responsabilidade e coerência.

Conheço meus limites. Meu trabalho é espiritual. É cuidar da energia, do Ori, da evolução nesse plano.

Sei bem, há um momento em que amar também exige dizer não. Há emoções que não posso, nem devo, carregar no lugar do outro. Sou a Mãe de Santo que chama para a consciência, para o compromisso com o próprio caminho. Sempre há a liberdade para retornar às areias, ganhar o mundo, aprender com a vida.

Por isso mesmo, como Mãe de Santo, deixo cada um encontrar sua posição dentro da casa, se ajeitar no seu próprio tempo, escrever sua própria história.

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Todos em posição

Antes de cada atendimento, existe um silêncio que organiza tudo.

Cambones atentos, médiuns alinhados, quietudes que ditam os tempos e dinâmicas exatas. Cada um sabe seu lugar, sua responsabilidade e o cuidado que precisa sustentar.

Terreiro também se constrói no coletivo.

A Casa Axé das Águas é repleta de detalhes, porque eu acredito que é neles que o amor aparece de verdade. No copo d’água oferecido com atenção. Na vela firmada no lugar certo. No isqueiro a postos pra acender o cachimbo do vovô. Na escuta respeitosa. No abraço depois de um atendimento difícil.

Cuidar também mora nesses pequenos gestos um com o outro e se estende, até alcançar os convidados.

Como Mãe de Santo, eu sou o exemplo. Eu vivo a Casa no detalhe, é o que dá vida ao nosso jeitinho. “O segredo da nossa casa é a doçura, carisma e acolhimento”. Meus filhos aprenderam isso comigo: aqui, a gente entrega o nosso melhor sempre.

Não por perfeccionismo. Por respeito. Respeito ao sagrado, às pessoas e ao que estamos construindo juntos como corrente.

Existe uma troca de olhares que sustenta tudo. Um entende o tempo do outro. Um ampara quando o outro vacila. Um percebe o que ainda nem foi dito.

É assim que a gira corre.

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Os atendimentos

Às vezes, eu nem paro para pensar no tamanho do que acontece aqui.

A gira termina, o silêncio volta devagar, e só então eu olho ao redor e percebo: centenas de pessoas passaram por esse chão em poucas horas.

Cada uma trazendo sua própria travessia. Uma dor que ninguém vê. Uma pergunta guardada há anos. Uma esperança pequena, mas insistente, de que algo finalmente se ajeite.

É muita vida atravessando a mesma porta.

E talvez esse seja o ponto mais bonito e mais delicado de um terreiro: entender que ninguém chega ali por acaso. Cada atendimento carrega mais do que uma fala. Carrega história. Carrega urgência. Carrega fé.

Lidar com memórias, tempos, dores e expectativas tão diferentes exige presença, escuta e firmeza o tempo todo. Porque, no fim, atender não é apenas ouvir e dar conselhos.

É sustentar, por alguns minutos, o peso e a possibilidade de esperança que há na vida de alguém.

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Fechamento da gira: subida dos guias espirituais

Um a um, os consulentes se despedem, com sorrisos ou lágrimas nos olhos. Com seus conselhos, ervas, flores e corações preenchidos.

Os guias escutam atentos os últimos dizeres. São nossos. Vejo os médiuns atenderem seus cambones, seus irmãos. Os primeiros a chegar geralmente são os últimos a serem ouvidos. Abraços fortes são seguidos das despedidas.

A curimba toca os pontos de partida. Os guias sobem, o silêncio vai preenchendo os espaços até que a última entidade ganhe seu caminho.

Eu respiro fundo e olho para o amanhã. O sentimento que vem é confirmação. Gratidão.

Tantas águas já passaram por mim. Ainda há tanto por vir.

Afinal, a espiritualidade só entrega a próxima etapa quando estamos prontos para ela.

Crescer, expandir, chegar à rua de trás, não é nada além de resposta. É colheita. O que foi plantado criou raiz. O axé está firme o suficiente para sustentar o próximo passo.

E axé vai se acumulando, se fortalecendo, se propagando.

Como água que não para de correr. Meus sonhos são grandes como o oceano de Iemanjá. Ganham distância, profundidade, movimento. Não cabem no raso.

É assim que eu me vejo.
E é assim que eu vejo a Casa: o meu caminho inteiro

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May

Quando a gira realmente termina, existe um momento que só quem pertence testemunha.

A porta da casinha se abre e as crianças saem correndo da “macumba kids”, espalhando riso no meio do cansaço. Entre médiuns exaustos, copos vazios e a sensação de dever cumprido, lá está ela: a dona da casa.

O abraço mais importante do meu dia. Minha filha de sangue.

Ela corre entre os médiuns como quem já conhece aquele chão de outras vidas. Pega um papel e começa a limpar os pontos riscados. Assopra uma vela. Abraça outra criança. Pede colo. Observa tudo com a naturalidade de quem entende, sem precisar explicar.

E talvez seja exatamente isso que mais me emociona.

Ver que, para ela, o terreiro não é exceção.

É casa.


Mãe Lorrane é dirigente da Casa Axé das Águas, filha de Oxum e Iemanjá. Vive o terreiro em todos os momentos, fazendo da própria existência um fluxo contínuo de conexão, força e encantamento.


Imagem: Estúdio Bori

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5 respostas a “Mãe de Santo é rio encontrando o mar”

  1. Avatar de chaoscasuallyc399d84bb3
    chaoscasuallyc399d84bb3

    Que emoção fazer parte dessa trajetória, vida longa Casa Axé Das Águas, Odoyá, Ore Ye Ye O, Laroyê
    🩵💛🖤♥️

  2. Avatar de Jair Santiago
    Jair Santiago

    Vida longa à Casa Axé das Águas. Orgulho em honrar e poder conteibuir com esse chão que me acolheu e fez encontrar a minha fé!!!
    Obrigado a minha Mãe de Santo, ao meu Pai de Santo e aos meus irmãos pelas palavras, broncas, carinho e desafios cotidianos!
    Eu amo vocês!
    Asè ooo.

  3. Avatar de Andrea Lins
    Andrea Lins

    A Casa Axé das Águas não é apenas um terreiro, é colo, direção, pertencimento e reencontro.
    Que mãe Oxum siga derramando doçura e prosperidade e que Mãe Iemanjá siga expandindo e fortalecendo esse chão! Axé!

  4. Avatar de Patrícia Barbosa Moreira

    Eu nem preciso de muito para chorar, mas tb não precisava me fazer chorar tanto.
    É sentido, é vivido e é acolhedor, ler e saber que na Casa Axe das Águas a gente encontra esse depoimento na pele, no coração e na alma, essa energia é sentida demais. 🤎💛

  5. […] dia antes, a casa estava cheia de vida. Eu e a Mãe Lorrane abrimos — pela primeira vez — as portas da Casa Axé das Águas para nossa família, nossos […]

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