Era o primeiro Viver Orixá da Casa Axé das Águas. Um formato novo, pensado para mergulharmos, com mais tempo e profundidade, nos saberes, nas virtudes e nos mistérios dos Orixás. Naquele dia, o encontro era dedicado à Iemanjá.
Ainda era verão. Uma tempestade se anunciou.
Enquanto a corrente arrumava a Casa para receber os convidados, o céu se escurecia. Cinza chumbo. As nuvens aceleradas, iam passando pelo céu, empurradas pela ventania. Oyá já rondava o terreiro.
Às 14h, choveu. Oyá não pretendia passar despercebida. À medida que a Mãe Lorrane conduzia o encontro, raios riscavam o céu e trovões interrompiam suas falas.
Eparrey, Oyá!
Em meio às águas salgadas e à tempestade, a Mãe Lorrane fez uma promessa: o próximo Viver Orixá seria de Oyá.
Oyá dá o sopro de vida a todos nós. Todos temos os ventos da guerreira pulsando em nosso corpo desde o primeiro instante, a primeira respiração. Em segundos, faz pulsar o coração. Intenso. Vívido. Potente.
Oyá é parte de todos nós. Oyá é parte significativa de quem eu sou.
É minha ancestral. Ela cuida da minha existência desde que minha alma foi criada. A bela Oyá também zela por essa vida, por essa alma que caminha hoje pela Terra.
Eu esperei pelo Viver Oyá com muita expectativa.
Havia algo de profundamente íntimo naquela aproximação. Eu sabia quem era a Orixá que me acompanhava, conhecia alguns de seus fundamentos, seus pontos, sua fama.
“Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo
Dentro de mim
Rainha dos raios, Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim”
Ainda assim, eu queria mais. Queria saber: “quanto de Oyá há dentro de mim?”
Logo antes, durante a mentoria de Ori Forte com a Mãe Lorrane, o temporal que é ser filha de Oyá já havia se apresentado.
Suas nuvens começaram a se formar dentro de mim desde cedo. Minha liberdade. Minha agilidade. Minha autenticidade. Minha força. Meu incômodo diante da estagnação. Minha necessidade constante de movimento. O que eu tantas vezes chamei de pressa, é Oyá. Seus ventos, sua potência, sua plenitude, sua inteireza, sua multiplicidade, seus valores.
Eu me vi sentada ao lado da minha mãe de sangue, no Viver Oyá, enquanto a Mãe Lorrane nos ensinava: Oyá aprende em todos os encontros.
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Oyá aprende em todos os encontros
Eu também. Aprendi principalmente com as mulheres da minha vida. Aprendi no exemplo. Com elas, aprendi a não permanecer onde o amor, a vida, o impulso já acabou. Aprendi a honrar minha força.
Minha avó, protagonista de sua própria vida, vivendo a frente do seu tempo, rompendo padrões, conquistando sua própria felicidade.
Minha mãe, seu eco, ressonância. Dona da própria história. Corajosa. Completa. Uma mãe que, assim como Iansã, não arrasta mortes lentas pela vida. Uma mãe que não negocia sua liberdade. Uma mãe que conquista.
Elas foram abrindo caminhos para que eu pudesse passar. E passei.
Com as mulheres da minha vida aprendi a me expressar, a falar o que há no meu coração. A ser palavra cuidadosamente lançada ao vento. Palavra que o vento leva e o vento traz. Vento que dá movimento, que ecoa pelo mundo, que transforma.
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Oya, força de 9 mistérios
Iansã é força de búfala selvagem. Impossível prender. Ela é fera livre. Ela tem uma força que faz a terra tremer. E sabe que sua força é bela. Não se faz de mansa pra agradar. Não negocia sua natureza selvagem. Iansã é indomável.
Ela é completa, não nega nenhum pedaço de si.
Iansã é a dona dos 9 caminhos que o Rio Níger faz até chegar ao oceano.
A liberdade feroz de Iansã é repleta de ousadia. Ela é uma mulher valente, guerreira, empoderada, autêntica. Oyá é símbolo do feminismo. Esse é um traço dela que pulsa em mim. Ela escolhe como quer se manifestar.
De Iansã, sou Búfala. Essa força da natureza que é movimento, impermanência. Justa, certeira, ela é pressa, fúria, intensidade, fogo, paixão. Eu sou essa Iansã. Não me prendo. Não me escondo. Não paro.
Iansã também é borboleta, delicadeza, suave, sensibilidade. Ela sabe quando ser tempestade e quando ser brisa, vento mansinho. Ela adapta sua força ao que precisa. Vento suave de Iansã acalma. Traz paz.
Se ela retorna ao casulo de borboleta é para se recolher, se reinventar, se curar, respeitar seus limites. Com ela, aprender a ser leve não é negar sua força, é ser estratégica, ser imperceptível quando é preciso.
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Dançar com Oyá
Ela dança livre, do jeito que quer dançar. E não é sobre o outro. É sobre si, sua própria alegria. Ela nos ensina a governar nossa própria vida, nossos passos, nossos giros, nossos movimentos.
Seu vento me pediu passagem. Mas minha mente impedia meu corpo de se mover livremente. Não havia movimento. Eu não me via dança. Faltava coragem. Impulso. Ímpeto. Ousadia.
Mas na Casa Axé das Águas, se me falta ar, todos são sopro, vento forte.
Era a primeira vez que Iansã dançaria com meu corpo.
Olhos fechados.
A Mãe ao meu lado.
O atabaque vibrando.
“Ela é Iansã de Balé! Olha eu, olha eu, bela Oyá”
“Eparrey, Oyá!” Minhas irmãs gritavam.
De repente, toda a corrente vibrava em minha direção.
Por todos os cantos, havia vento.
Minhas mãos se elevaram.
Meus pés flutuaram.
Meu corpo tremeu.
Iansã me tomou.
Dançamos.
“Eu sou filha do vento, eu não me rendo ao mal tempo.“
Letícia Moreira, paulista, advogada, inovadora, feminista e insaciavelmente curiosa. Filha de Iansã e Ogum, caminha entre a força dos ventos e a firmeza do ferro, movida pelo desejo de compreender, transformar e construir caminhos com coragem e propósito.
Imagem: por Andressa Rudiuc – Estúdio Bori

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