As grandes decisões das nossas vidas raramente se mostram como tal. Elas chegam como uma escolha pequena, “e se eu fosse?”. Um sussurro. Um pensamento despretensioso. “E se eu dissesse sim?”
Era quase fim de semana. Mais uma vez a Lorrane me convidava pra gira. Preto Velho.
“Não tem gira melhor pra você se sentir acolhida“, disse a Lorrane. “Vai ser muito bem-vinda!“
Aquela frase era um portal sagrado. E eu, sem saber, estava prestes a atravessar. Permanecer.
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Cresci entre terço e missa. Foi assim que aprendi a viver minha fé — de um jeito só, o único que eu conhecia.
De Umbanda, eu não sabia nada. Só ouvia, baixinho, entre os adultos: “não é coisa boa.“
Até que eu conheci a Lorrane. Nossos caminhos se cruzaram bem longe do terreiro. Primeiro, eu conheci a mulher, a mãe, a esposa, a filha, a aluna. Primeiro, cuidamos do corpo, dos pesos, das sequências, dos exercícios, da rotina.
Fomos nos conhecendo. Um treino de cada vez, eu fui percebendo um traço impossível de ignorar naquela mulher: a espiritualidade. Inexorável. Em um dia comum, ela me contou sobre seu papel no terreiro: Mãe de Santo.
Havia uma naturalidade ímpar, que mostrava o quanto ela estava à vontade nesse lugar. Ao mesmo tempo, nenhum vestígio de vaidade. Só uma constatação carregada de honra.
Fui convidada pra conhecer a Casa várias vezes. Recusava. Não me sentia pronta — era o que eu repetia pra mim mesma.
Até o dia em que percebi: a espiritualidade estava me esperando. Decidi dizer sim.
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Era gira de Preto Velho…
Minha primeira gira de Umbanda. Fui de coração aberto, mesmo sem saber quase nada. Fui levando muito respeito, olhos atentos e mente quieta. Deixei qualquer medo na calçada e me preparei pra viver cada segundo quando entrasse. Queria estar plenamente presente.
Eu ainda não percebia, mas ali, eu era iniciante. Aquele dia, aquela gira era o início de um capítulo importante da minha história. Aquele era um momento que marcava “um antes e um depois”.
Eu não sabia o nome dos guias. Não sabia cantar. Não sabia se eu deveria seguir alguma regra. Hora pra sentar? Hora pra levantar? Ficar descalço? O que eu faço com meus tênis?
Ok. Um rosto familiar. A Lorrane pegou o microfone, se apresentou, falou sobre a linha de Pretos Velhos, porque havia pipoca pela casa, explicou sobre a comida de axé que seria servida pra nós naquela gira, broa de milho: “Orixá come pela boca do homem, quem puder, aproveite pra internalizar esse axé. Foi feita com muito carinho!”
Antes de abrir a gira, houve um momento especialmente dedicado a honrar quem já se foi.
“Quando eu for pra Aruanda, sei que vou te encontrar, rodeada de crianças, do lado de Iemanjá…”
O tempo parou. Deixou a saudade passar. Lágrimas. Nostalgia. Eu rezei baixinho, pensando nos meus.
Os médiuns já estavam todos juntos na nossa frente, a postos pra gira. O atabaque vibrou. Outra energia ocupou a Casa. A corrente cantou a plenos pulmões, olhando pra fora. Nos rostos de todos havia muito respeito, concentração e reverência. Exu Morcego, Exu do Lodo, Maria Padilha.
Minhas mãos suavam. Não fazia calor, mas uma atmosfera quente, densa, acelerada pairava no ar. Meu coração acompanhava as batidas da curimba.
Não sabia fazer os movimentos que eles faziam com as mãos entrelaçadas, palmas viradas para o chão. Em silêncio, me mantive atenta, absorvendo tudo.
Todos nos deram as costas, a corrente se voltou para a parede. “Salve a defumação”. Palmas. Uma porta se abriu. A fumaça invadiu o terreiro. Um raio de sol entrou, criando uma atmosfera mágica, encantadora, resplandecente.
O cheiro da defumação me invadiu. Não identifiquei as ervas, mas me senti abençoada pelo momento. Cada canto do terreiro, da portinha ao jardim, cada vida ali presente, tudo foi sendo tomado pela fumaça. Respirei, o que me preencheu era sagrado. Eu me encantei.
O ar esbranquiçado foi se dissipando enquanto a corrente cantava. Pensei: “Isso não é português, que idioma é esse?” Dessa vez, as palavras eram ditas com ainda mais emoção, fé, delicadeza. Havia afeto. Amor.
Assisti às cenas seguintes com encantamento. Eu sabia, ainda ali, sentada, que voltaria. Queria sentir tudo aquilo de novo. Com gratidão, entendi o que é uma gira.
Eu não fiquei até o fim, mas me senti acolhida por inteiro. Protegida. Cuidada.
Aquela não seria uma visita pontual, uma experiência única, uma gira pra conhecer.
Me percebi iniciante, pronta pra começar, pra aprender.
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Voltei. E voltei de novo. Brilho nos olhos. Curiosidade.
Enquanto Lorrane me contava sobre os dias de sábado no Desenvolvimento Mediúnico, fui começando a me imaginar lá também. Se eu fosse aluna, poderia absorver saberes ancestrais, entender os fundamentos, viver os tempos e movimentos da gira com ainda mais intensidade, intenção e consciência. Discernimento.
Iniciante ou não, eu entendi que cada casa tem seu fundamento, seus valores. Cada curso de desenvolvimento é como uma folha em branco. Eu podia começar do zero na Casa Axé das Águas, ao lado de alguém que não estivesse necessariamente começando do zero, alguém que tivesse vivido a Umbanda em outro lugar, mas estivesse iniciando um novo capítulo na sua história com a espiritualidade.
Mais uma vez, senti que seria acolhida. A curiosidade foi crescendo devagar até virar decisão. Quando o curso abriu inscrição, eu já estava lá.
Mais do que me sentir pronta, cuidei com carinho da minha decisão.
Eu queria aprender com quem eu me identificava, uma mãe de santo que nunca escondeu quem era.
Queria estar em uma casa que dizia em voz alta os próprios valores — a mulher no lugar que ela escolher estar.
Queria estar entre pessoas que admiro, fazer parte da história da Lorrane e do Pai Fábio, construindo espiritualidade juntos, com amor, acolhimento e justiça.
Eu queria viver aquilo também.
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No chão do terreiro, eu me encontrei comigo mesma. Não era gira. Era ritual. Ritual de Padilha.
Foi ali. Algo em mim se reorganizou de vez. Toquei uma parte minha que eu não sabia nomear — o meu feminino, talvez. Aprendi a me olhar com carinho.
Ouvi o mesmo conselho de guias diferentes, em momentos diferentes, sem que um soubesse do outro. Não chamei de coincidência. Chamei de reconhecimento.
Antes, eu só sabia olhar os outros com generosidade.
Depois, aprendi a olhar assim pra mim.
A Casa mudou o jeito como eu vivo. Como eu falo. Como eu me relaciono. E continua mudando. Continuo crescendo.
A Casa Axé das Águas me empoderou, mostrou minha força, minha potência.
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Foi uma questão de tempo até o carinho, o cuidado, a consideração se tornarem um rio que passava por mim. Águas em que eu queria entrar sempre.
Uma demonstração de carinho especial da Lorrane foi o convite para a festa de aniversário da Casa. O samba, a recepção de todos, a alegria da comemoração. Era tudo tão bonito. Minuto a minuto, eu me sentia dentro da corrente, me sentia pertencente, como se o corpo soubesse antes de mim.
Um silêncio se abriu para os discursos. A Lorrane falou sobre os 4 anos da Casa Axé das Águas. Breve, o Fábio disse palavras de gratidão. A Ilza também. A certo ponto, ela perguntou porquê eu ainda não era parte da corrente. A Lorrane me deu a deixa, então aproveitei.
Fiz um pedido público, entre risadas e um toque de solenidade. Um pedido de quase casamento, a gente brinca até hoje. Eu disse sim. A Mãe Lorrane disse sim. E a corrente inteira veio, um por um, me dar as boas-vindas, me abraçar, me incluir.
Eu estava em casa.
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Ainda sinto aquela sensação da primeira gira: a pele arrepia, o coração acelera. É a mesma sensação daquela primeira vez, pisando no chão do terreiro.
Às vezes penso em quem eu era antes daquela gira — a mulher que só ia quando estivesse pronta. Hoje sei que ninguém chega pronto. A gente chega, o terreiro cuida do resto.
Bem-vinda de volta, a espiritualidade dizia.
Ainda diz.
Beatriz Santana é personal trainer, baiana, carrega muita história e faz sua história com determinação. Se sente motivada ao caminhar pela vida inspirando mulheres a se movimentarem através da força que cada uma delas possui!
Imagem: Estúdio Bori

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