Como eu soube que era minha hora de começar um Curso de Desenvolvimento Mediúnico?
Tudo começou com uma música: o meu lugar, é caminho de Ogum e Iansã. Depois de semanas cantarolando esse trechinho, eu me dei conta, não me lembrava quando havia sido sequer a última vez que tinha ouvido aquele samba, mas a letra persistia comigo. Não era coincidência, era um recado. Eu deveria encontrar o meu lugar, um lugar que me levasse até Ogum e Iansã.
Foi assim que comecei a buscar: “Terreiro de Umbanda na Zona Sul de São Paulo”. Eu era tão inocente, tão ingênua, tão inexperiente. Eu me sentei na minha cama, notebook no colo, fazendo pesquisas e mais pesquisas no Google. Eu que não dirijo e mal sabia usar o metrô, decidi: “essa cidade vai me mostrar aonde ir”.
Menina do interior, eu abri o Google Maps, esperando colocar uma estrela em um lugar próximo de mim, pra onde eu pudesse ir andando.
Quando eu encontrei a Casa Axé das Águas, disse pra mim mesma: é aqui!
Eu me lembro claramente de decidir que eu seria corajosa. Eu escolhi meu lugar sozinha. Eu iria sozinha também. Não contaria pra ninguém. Minha fé, coisa só minha.
Leiga. Eu jamais estive sozinha. Eu nunca ando só. Meus guias, meus guardiões e meus mentores me conduziam silenciosamente. Minha espiritualidade me guiou em cada escolha, me amparou, me direcionou, me deu tudo que eu precisava pra encontrar meu lugar.
“Dá o passo, Exu dá o caminho”.
Sem sequer saber que tantos me escoltavam pela vida, eu encontrei dentro de mim uma fé impressionante. Nunca senti tanta fé em mim mesma.
No dia em que pisei pela primeira vez na Casa Axé das Águas, eu me posicionei de pé, ao fundo. Cheguei cedo, observando tudo, com olhos de águia. Olhando para todas aquelas pessoas de branco, eu não tinha clareza alguma: por que eu tinha chegado até ali? qual seria meu destino? o que aquela Casa representaria na minha história? eu voltaria?
(Naquele dia, eu não sabia se a Casa Axé das Águas tinha Curso de Desenvolvimento Mediúnico – na verdade, eu mal sabia o que era um Curso de Desenvolvimento Mediúnico.)
Aquele sábado à tarde era só meu. Meu momento, então vivi cada segundo com carinho. Acolhi os pensamentos, as dúvidas, os mistérios e apenas senti. Aos poucos, meu corpo relaxou diante do desconhecido. Minha mente se aquietou, reconhecendo que eu estava segura, percebendo um pulso que sempre esteve comigo, desde muito antes, só esperando o momento certo para ser ouvido.
A espiritualidade foi deixando seus rastros, sinais, migalhas de pão. Eu segui. Até chegar àquele momento.
Cheguei sem saber quase nada sobre os fundamentos, sem conhecer os dirigentes, sem conhecer a corrente ou qualquer outro consulente. Mesmo assim, me senti acolhida. Abraçada pelos olhares. Compreendida pelos guias. Envolvida pela energia.
Antes de me despedir, eu já sabia que iria voltar. Fui voltando. Uma, duas, três vezes. Eu sempre saía de lá mais leve do que tinha chegado. Eu me desligava do mundo lá fora, dos meus medos, dos meus anseios, das minhas frustrações. Imersa nos tempos, movimentos, aromas, cores, eu observava as flores, os gestos dos guias durante os atendimentos, os olhares carregados de lágrimas dos consulentes. Eu me perguntava, como eles haviam se preparado pra chegar até ali? Como teria sido a vida antes? Como seria depois? Eles ficariam cansados? Eles se lembrariam?
Curiosa, segui observando tudo atentamente. Até que eu ouvi sobre o Curso de Desenvolvimento Mediúnico.
Quinzenalmente, a turma se encontraria aos sábados por um ano. Não era preciso saber nada previamente. Apenas levar o coração aberto pra aprender. Mais uma vez, me senti pronta.
Eu não sabia se queria fazer parte de tudo aquilo ainda, mas queria aprender, desenvolver um relacionamento mais íntimo com a espiritualidade, conhecer de perto a vida em comunidade.
Guias, Orixás, Guardiões, Mentores, fundamentos, valores, rituais, vivências, havia um universo imenso e desconhecido pra explorar.
Eu era apenas uma gota d’agua naquele oceano de saberes. Queria mergulhar em mim, mergulhar.
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Eu me inscrevi no Curso de Desenvolvimento Mediúnico
Aguardei por algumas semanas. A lista de espera era enorme, minha fé era maior. Aquele era o meu lugar, eu estava decidida. Convenceria o destino se precisasse.
Devagarinho, a minha vez foi chegando. Até que recebi uma mensagem: “Parabéns, você garantiu seu lugar no Curso de Desenvolvimento Mediúnico da Casa Axé das Águas! Seja bem-vinda!”
Os meses se passaram até a primeira aula.
O Curso de Desenvolvimento Mediúnico começa do jeito mais comum e honesto que pode haver. Todos se apresentam, contam como chegaram até ali. Cada um tem uma história. Alguns estão buscando respostas para perguntas que desconhecem. Outros carregam apenas curiosidade sobre a religião, sem um propósito definido. Há quem saiba exatamente qual é sua missão, mas não tenha clareza sobre como viver a espiritualidade. Entre tantos, há, ainda, quem já viveu o chão de terreiro em outros lugares, conhece as tradições, a religião, mas gostaria de uma nova perspectiva para seguir com sua fé renovada.
Entre iniciantes e iniciados, nos misturamos, nos apresentamos, nos acolhemos. Nessa primeira aula, a Mãe Lorrane e o Pai Fábio contam suas histórias. Histórias de infância. Histórias de amor. Histórias de fé. Histórias que moldam quem são, seus valores, seu legado, a identidade da Casa Axé das Águas.
Essas histórias do casal são vestígios do que podemos esperar do Curso de Desenvolvimento Mediúnico. A primeira aula é um prefácio.
Na segunda aula, chego com um bolo de fubá. Posiciono na mesa de café da manhã, ao lado de um bolo de laranja que outra aluna partia em fatias. Puxo uma cadeira, bem na frente e faço silêncio. Observo os assentamentos, sei tão pouco que não sou capaz de cumprimentá-los, muito menos de rezar.
Puxo meu caderninho da bolsa. Anoto a data. Alguém se senta ao meu lado. A Casa ficou cheia. A Mãe Lorrane aparece, com o microfone. Sorri pra mim. “Bom dia!” São 9h da manhã. Nenhum pensamento cruza minha mente.
A primeira parte da aula é teórica. Fazemos uma pausa, um intervalo pra interagir, comer, tomar um solzinho no jardim. Logo começa a segunda parte da aula: prática. Uma meditação. Nós nos concentramos. Depois, formamos duplas. Duplas de desconhecidos. Quanta vergonha. Alguns de nós ficam tão desconcertados que chega a ser engraçado. Eu não me acanho, não sou exatamente tímida, mas percebo uma dificuldade dramática de olhar nos olhos do meu par, respirar regularmente, aquietar meus pensamentos.
Eu não sabia exatamente o que ia acontecer em seguida, o que eu deveria sentir, como me comportar, o que esperar daquele exercício. Ao fim, percebi que a energia do outro me invadia. Meu campo, desprotegido pela minha dificuldade de me concentrar, absorvia lentamente a vibração alheia.
Aquela era uma das primeiras lições do Curso de Desenvolvimento Mediúnico: quando não estamos conscientes de nós mesmos, o outro nos afeta. Se eu não sei o que é meu e o que é do outro, uma confusão pode habitar em mim.
Claramente, o Curso de Desenvolvimento Mediúnico é sobre a Umbanda e é sobre mim. Autoconhecimento. Autodescobrimento.
Os Orixás. Meus padrões de comportamento. Os guias. O meu processo de evolução. Os fundamentos. Os meus valores inegociáveis. O coletivo. O individual. Os itans. A minha história. A ancestralidade. A minha família.
Enquanto partes significativas de nós floresciam, aprendemos a tocar em outras partes nossas que ficaram esquecidas com o tempo. Trechos da nossa infância, escolhas de vida, traumas, alegrias, amores, esperanças. Uma revolução acontecia dentro de cada um de nós.
É preciso resiliência, força, clareza e autoconfiança pra encarar o caos de frente.
Fui me encontrando aos poucos. Ao mesmo tempo, passei a me sentir extremamente honrada por pisar naquele chão. Fui aprendendo, pouco a pouco, o que significava chegar até ali, compartilhar daquele espaço, honrar meus ancestrais.
Eu me senti grata e abençoada quando entendi quão protegida, guiada, amparada eu sou. Quantos Orixás habitam dentro de mim. Quantas entidades me sustentam, me cercam, me empoderam, me conduzem.
Há tanta vida cuidando da minha vida.
Sem cerimônia, sem alarde, sem se apresentar sequer, sem que eu os conhecesse, eles me iluminam diariamente.
O Curso de Desenvolvimento Mediúnico é um processo com seu próprio ritmo. Cada um de nós cria intimidade consigo e com sua espiritualidade no seu tempo.
Uma estrutura nos envolve, nos dá chão, nos abraça. Aos poucos, vamos nos conhecendo, nos reconhecendo, fazendo amizades, nos cercando das energias que atraímos, trocando com as pessoas que mais gostamos.
A turma vai se aproximando, se ouvindo, se mostrando, até construir uma identidade, um Orí coletivo.
Aprendemos a confiar uns nos outros. Se não sabemos, aprendemos a confiar na corrente, a confiar nos cuidados contínuos da nossa Mãe Lorrane, na calma do nosso Pai Fábio.
Aprendemos a ser um todo.
O Curso de Desenvolvimento Mediúnico nos ensina a viver em comunidade. A ser comunidade.
No terreiro, descobri novas versões de mim mesma, versões belíssimas. Versões que habitam em mim, versões que no início só saem de casa para a Casa Axé das Águas, depois caminham pelo mundo, desenvolvidas, donas de si. Eu? Um ser humano melhor. Uma macumbeira.
Relato coletivo resultado de entrevistas com alunas do Curso de Desenvolvimento Mediúnico da Casa Axé das Águas.
Edição: Daniela Souza.
Imagem: Amaci. Estúdio Bori

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