Por Elissa Beatriz Martins*
O ano era 2024. Primavera. Prometi a mim mesma que chegaria à Casa Axé das Águas a tempo de entrar pra gira. Mesmo que isso me custasse deixar pra trás meu quarto, meu templo, meu refúgio menos organizado do que eu gostaria.
Insatisfeita com o pouco que fiz pelo axé do espaço que me recarrega, me traz paz e me estabiliza, tentei passar as duas horas no caminho até a Casa sem pensar no que tinha deixado de fazer.
“Mulambo é de macumba” tocava no fone, enquanto eu ia me reconectando com a energia que antecede a gira de umbanda, o frio na barriga, a ansiedade de chegar há tempo, mesmo indo de tão longe.
No caminho, me lembrei da primeira vez no ônibus pra Casa. O mesmo ponto tocou inúmeras vezes. Mulambo me acompanhou, afastando de mim a vontade de morrer.
Mas naquele dia não. Eu já era outra história, eu queria viver, viver pra sentir o chão do terreiro, os toques do atabaque, a energia acolhedora da Casa.
Sorri, mesmo ainda triste. Mesmo deprimida. Mesmo atravessada pelos erros do passado.
Sorri. Me dei conta do quão viva estava e pensei na espiritualidade trabalhando incessantemente pra me ver viver, me ver caminhar entre os meus ancestrais, me ver vencer meus medos. Quantos medos…
Foi quando um novo afeto me encontrou: o pânico. No caminho entre a parada do ônibus e o terreiro, uma pessoa tentou me roubar. Meu celular foi puxado, de repente. Sem me dar conta do risco, segurei firme, tão firme quanto pude. A força? Da esquerda. Na rua, Exu e Pombagira sempre estão por nós.
Tão rápido me assustei, tão rápido me recompus. Eram 15:59, eu precisava me apressar pra gira. Corri pra alcançar a rua do terreiro. Cheguei bem quando estavam fechando o portão. Por pouco consegui entrar. O susto me deixou sensível, mas o medo de perder a gira era maior.
Entre o alívio e a felicidade de ter conseguido entrar, me acomodei em um canto. Lá estava eu, outra vez, outra gira, ao lado do assentamento de Padilha.
A Casa estava cheia. Apertada. Na ausência do silêncio que me acalenta, Padilha me acolheu. O cheiro do incenso que queimava, o perfume dela diminuía a agonia do aperto. Era como se Maria Padilha pedisse para que eu me concentrasse no cheiro e me lembrasse de respirar.
Essa Casa também acolhe assim, pelos sentidos.
Quando me dei conta, minha atenção estava direcionada para os médiuns sob a pintura das Iabás, Oxum e Yemanja.
Normalmente, evito olhar diretamente para o rosto das pessoas, encontrar seus olhos, registrar suas expressões.
Dentro da Casa, isso muda. Não é estranho olhar para quem está na corrente, porque ali seus corpos estão voltados para o público, para o coletivo. Talvez as pessoas da Casa nem me notem, mas eu reparo nelas. Guardo feições, movimentos, presenças.
Até consigo perceber pequenas mudanças: uma médium pintou o cabelo entre uma gira e outra, a ausência de alguém, as flores brancas junto à Iemanjá. A Casa também se revela nesses detalhes. Desde a sensibilidade da distribuição senhas na porteira, com sorrisos recepcionando, até tudo limpinho e organizado.
Ainda olhando pros médiuns, pensei em quantas pessoas atravessam o mundo oferecendo o olhar sem nunca recebê-lo de volta. E como isso simula o mundo espiritual. Quantas vezes meus ancestrais me olharam e eu não percebi? Meus pensamentos ganharam o mundo: o número de olhares trocados num dia é par ou ímpar? Os não correspondidos contam?
Nessa hora, a Mãe de santo pegou o microfone, encerrando o ensaio e abrindo a gira. Quando ela fala a energia da Casa muda. Há um silêncio simpático enquanto ela se apresenta, introduz a linha de trabalho do dia e descreve o que vamos comer. Mesmo jovem, o timbre da voz, a postura firme, a seriedade nas palavras fazem com que uma energia única de respeito, acolhimento e fé se instale entre as pessoas.
Há sempre um ensinamento quando a Mãe Lorrane fala. É impossível não ouvir com o coração atento. Ela pode nos emocionar falando de Pombagiras, de Baianos, de Boiadeiros, de Pretos Velhos – todas as linhas. Seu discurso sempre é carregado de axé, de conexão e afeto.
Gira aberta
Eu me lembro de segurar minhas lágrimas – águas da semana toda que insistiam em chegar aos meus olhos – enquanto pude. Eu sempre acho que não vou chorar na gira, porque tem muita gente vendo. Eu odeio me sentir exposta em um momento vulnerável – principalmente diante de desconhecidos.
Engolir o choro nunca funciona na Casa Axé das Águas. Ali, meu ego não tem vez. Eu sou só mais uma, tão vulnerável e suscetível à emoção quanto todos os outros consulentes.
Chorar na Casa Axé das Águas é transbordar águas de Oxum.
Ah Oxum… Quando o atabaque tocou pra Rainha das Águas doces, pra Orixá que rege a Casa, desaguei. Não há nada que se compare a ouvir os toques, as vozes, as palmas, a vibração da corrente quando é hora de chamar Oxum. Nenhum fone é capaz de reproduzir.
Os trabalhos se abriram.
Enquanto as senhas de pessoas que chegaram à gira antes de mim iam sendo chamadas, eu observava mais de perto os detalhes. Olhava em volta e via como o capricho estava materializado nos mínimos detalhes: nada ali parecia excessivo, mas nada parecia largado.
Aguardava minha vez em silêncio. Entre desconhecidos, eu me peguei pensando sobre “pertencimento“. Desde que eu fui apresentada a ideia de “pertencer”, às vezes, me via tentando perceber se eu conseguia me enxergar como parte dos lugares. Muitas vezes não, e isso me adoecia mentalmente.
Naquele momento, cantando e chorando coletivamente, entendi a diferença entre estar só e estar junto.
Eu tinha tudo para não me enxergar naquele espaço: uma casa em Moema, com pessoas que aparentavam viver uma realidade tão distante da minha, mas não era o caso. Mesmo que eu fosse só mais uma consulente, sentia que, na Casa Axé das Águas, até o meu choro deixava de ser solitário.
Minhas lágrimas eram amparadas pela espiritualidade, assim como as de todos a minha volta.
Esse coletivo se sustentava sem exigir fusão. Independente do que se passava no coração de cada um, havia ali um espaço a ser ocupado, sentido, experienciado tanto por quem fica ao centro, quanto por quem prefere as bordas e os cantos – às margens.
Existia acolhimento sem invasão. Sentia que a espiritualidade me olhava, via minha entrega ali, e isso valia muito.
Nossa teia espiritual enxerga o que nem sempre está visível. E, com certeza, vê muito mais proximidade entre todos nós – entre eu e aqueles estranhos que também podiam estar chorando silenciosamente – do que meus vieses inconscientes conseguiam compreender.
Olhando pra trás, eu só agradeço. Agradeço por ter me livrado da culpa de estar ali, porque eu sinto minha espiritualidade sendo trabalhada naquele chão. E sempre sinto vontade de voltar. Tenho certeza de que meus ancestrais que me levaram àquele lugar.
Não porque eu precisasse irremediavelmente da consulta na gira. Não. Queria só estar ali. Sentindo. Louvando. Permitindo que o axé me atravesse, que os Orixás me toquem.
De cabeça erguida, meus olhos fitavam as Iabás, senti gratidão por Oxum e Iemanjá me acolherem mesmo quando eu não me senti merecedora da minha própria pele.
O meu momento chegou.
Seu Zé do Laço se apresentou. Contei o que vivia, onde doía e porque eu estava ali. Certeiro e direto, seu Zé me apontou caminhos.
Ainda faltava muito pro dia findar, pra eu reencontrar meu quarto, pro silêncio me embalar. Naquele dia, eu não veria a gira fechar, os boiadeiros se despedirem, as rosas sendo distribuídas no portão.
Eu podia ir pra casa tranquila, sabia que voltaria em breve e que voltaria muitas vezes.
No ano seguinte, estaria lá para o Curso de Desenvolvimento Mediúnico na Casa Axé das Águas.
Há muitos mistérios sobre o que é, de fato, a espiritualidade. Mas é como se, de algum modo, eu já soubesse. Naquele momento, eu sentia que essa Casa seria o livro a partir do qual eu poderia aprender.
Eu tinha a impressão de que essa decisão mudaria a minha vida.
Era verdade. Mergulhei naquelas águas.
*Elissa Beatriz Martins é filha da Casa Axé das Águas, amazônida, dançarina de Carimbó, aluna da USP…

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